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O Rei Proclamado na Grande Mesquita
Em 8 de janeiro de 1926, no pátio da Grande Mesquita de Meca, os notáveis da cidade aclamam Abdulaziz ibn Saud rei do Hejaz.
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O pátio de pedra antes da oração
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No começo de 1926 a Arábia ainda não era um país. Era um mosaico de emirados, portos e confederações tribais cujas fronteiras mudavam conforme a estação, o preço da tâmara e a lealdade de quem controlava os poços no caminho das caravanas.
Dois poderes disputavam o centro dessa geografia. No planalto do Nejd, com capital em Riade, mandava a casa dos Saud, aliada ao movimento religioso reformista de Muhammad ibn Abd al Wahhab desde o século XVIII. No litoral do mar Vermelho ficava o Hejaz, com Meca e Medina, governado pelos xarifes hachemitas.
O xarife Hussein bin Ali tinha sido a estrela da Primeira Guerra na região. Ele liderou a Revolta Árabe de 1916 contra os otomanos com dinheiro e armas britânicos, colocou os filhos à frente das colunas de camelo e saiu do conflito coroado rei do Hejaz, com a guarda das duas cidades mais sagradas do Islã.
O que derrubou Hussein foi um título. Em março de 1924 a Assembleia de Ancara aboliu o califado otomano, e ele se proclamou califa poucos dias depois, sem consulta ao mundo muçulmano. O gesto irritou a Índia britânica, irritou o Egito e deu a Abdulaziz ibn Saud o argumento que faltava.
A campanha foi curta e metódica. Taif caiu em setembro de 1924, Meca foi ocupada em outubro sem combate de rua, Hussein abdicou em favor do filho Ali e embarcou para o exílio em Chipre. Jidá resistiu num cerco que se arrastou quase um ano inteiro, sustentado por navio e por crédito, até Ali deixar a cidade em dezembro de 1925.
Medina já tinha se rendido no começo daquele mesmo mês. Com o porto, o santuário e a capital administrativa nas mãos, faltava ao vencedor a única coisa que exército nenhum entrega, o reconhecimento formal de quem morava ali e de quem mandava peregrinos todo ano.
A primeira página de hoje começa numa manhã de sexta-feira, no pátio de pedra da Grande Mesquita, com os notáveis de Meca enfileirados para apertar a mão de um homem do planalto.
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I A Primeira Página de Hoje
O pátio de pedra e o aperto de mão dos notáveis
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Na sexta-feira, 8 de janeiro de 1926, depois da oração coletiva na Grande Mesquita de Meca, os ulemás da cidade, os chefes de tribo do Hejaz e os representantes das corporações de comércio se puseram em fila no pátio para prestar a bay'ah a Abdulaziz ibn Saud.
A bay'ah é o juramento de fidelidade da tradição islâmica, e a forma é física. Cada homem aperta a mão do governante e declara obediência em voz alta, um a um, diante de testemunhas, sem cerimônia de coroa, sem trono e sem qualquer objeto que represente o poder recebido.
O título saiu dali com uma redação estranha de propósito. Ele passou a se chamar rei do Hejaz e sultão do Nejd e suas dependências, duas coroas separadas na mesma cabeça, com duas administrações, dois tesouros e dois conjuntos de lei costumeira funcionando em paralelo.
A escolha era política. O Hejaz tinha cidade grande, funcionário público, alfândega, imprensa e uma população acostumada ao trânsito de estrangeiro, enquanto o Nejd era interior tribal e rigor religioso, e misturar os dois no primeiro dia teria custado ao vencedor a paz que ele acabara de comprar.
A ficha do dia, como os jornais da época a registraram:
| Data | sexta-feira, 8 de janeiro de 1926 | | Lugar | pátio da Grande Mesquita de Meca | | Título recebido | rei do Hejaz | | Título que ele já tinha | sultão do Nejd | | Tempo de campanha até ali | cerca de 16 meses | | Primeira potência a reconhecer | União Soviética, em fevereiro |
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Um homem que aos 21 anos tinha retomado Riade com algumas dezenas de companheiros numa incursão noturna estava agora, aos 50, recebendo juramento no pátio mais visitado do mundo muçulmano.
O reconhecimento estrangeiro veio rápido e por um lado inesperado. Moscou registrou o novo rei em fevereiro de 1926, antes de qualquer chancelaria europeia, num movimento de puro cálculo diplomático para marcar presença numa costa onde os britânicos mandavam havia décadas.
Londres levou mais tempo e cobrou mais caro. O Tratado de Jidá, assinado em maio de 1927, reconheceu a independência completa do reino em troca do compromisso de respeitar as fronteiras dos protetorados vizinhos e de garantir a segurança dos peregrinos que chegavam por navio.
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Meu reino sobreviverá apenas enquanto continuar sendo um país de difícil acesso, onde o estrangeiro não tenha outro objetivo, cumprida a tarefa, senão sair.
Abdulaziz ibn Saud, citado em Ibn Sa'oud of Arabia, de Ameen Rihani, 1928
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A primeira medida prática do reinado foi de logística, não de doutrina. Ele convocou para o meio daquele ano um congresso islâmico em Meca, com delegações da Índia, do Egito, da Turquia e da Indonésia, para provar ao mundo muçulmano que a peregrinação continuaria aberta sob a nova administração.
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II O Que Aconteceu Depois
Do juramento no pátio ao reino de 1932
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O aperto de mão no pátio resolveu a legitimidade dentro da cidade, mas abriu uma conta com os homens que tinham feito a conquista, os ikhwan, milícias religiosas do interior que não entendiam por que o avanço parava justo na fronteira do protetorado britânico.
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Os ikhwan eram beduínos assentados em colônias agrícolas desde 1912, treinados para viver de agricultura e de guerra santa. Eles tinham tomado Taif, cercado Jidá e entregue o Hejaz ao rei, e cobravam a continuidade natural do serviço, atacar o Iraque, a Transjordânia e o Kuwait.
O rei recusou. Ele tinha acabado de assinar um reconhecimento internacional que dependia de fronteira quieta, precisava da renda da peregrinação e sabia que enfrentar a Real Força Aérea britânica no deserto era trocar um reino por uma campanha perdida.
A ruptura virou guerra civil. Entre 1927 e 1929 os ikhwan cruzaram a fronteira por conta própria, atacaram postos iraquianos e foram derrotados pelo próprio rei na batalha de Sabilla, em março de 1929, num campo aberto onde a cavalaria de camelo enfrentou metralhadora e carro blindado.
Vencida a revolta, o mapa parou de se mexer e a costura administrativa começou. As duas coroas foram sendo aproximadas por decreto, com moeda comum, correio unificado, serviço de saúde para o período da peregrinação e um conselho consultivo instalado em Meca para dar forma de governo ao que era acampamento.
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O movimento wahhabita não é nada mais nem nada menos do que a reafirmação dos princípios fundamentais do Islã.
H. St. John Philby, Arabia of the Wahhabis, 1928
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Em 23 de setembro de 1932 o decreto final fundiu os dois territórios num nome só, Reino da Arábia Saudita, e o rei do Hejaz e sultão do Nejd passou a ser simplesmente o rei da Arábia Saudita, com uma capital, um tesouro e uma lei.
O tesouro, aliás, estava vazio. A crise de 1929 derrubou o número de peregrinos, que era a receita principal do país, e o reino novo entrou nos anos 1930 devendo salário a funcionário público e comprando comida a crédito de comerciante de Jidá.
A saída chegou em 1933, com a concessão de exploração assinada com a Standard Oil da Califórnia por um adiantamento em libras de ouro. Os geólogos americanos furaram poço atrás de poço sem resultado por cinco anos, e o sexto, o Dammam número 7, jorrou em março de 1938.
Vale medir o intervalo. Entre a mão estendida no pátio de Meca e o primeiro barril comercial passaram doze anos, tempo suficiente para o rei atravessar uma guerra civil, uma depressão mundial e uma quase falência antes que o subsolo mudasse o país de categoria.
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III O Anúncio da Página 3
O reclame da passagem para a peregrinação
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A página: nos jornais de Bombaim, Cairo, Cingapura e Batávia de 1926, a coluna de navegação anunciava a temporada do hajj com o nome do vapor no topo, a data de partida, o porto de destino em Jidá e a tarifa de convés, que era o bilhete mais barato e o mais vendido.
O anúncio: o texto não vendia paisagem. Vendia certeza de chegada e de volta, com menção expressa a autoridade sanitária, a estoque de água potável a bordo e a agente da companhia esperando no desembarque para resolver documento e transporte até Meca.
A coluna: ao lado corriam os reclames que dependiam do mesmo calendário, casa de câmbio de moeda de prata, aluguel de camelo para o trecho de terra, hospedaria em Jidá e seguro de bagagem, um comércio inteiro montado sobre um mês do ano religioso.
A conta da temporada de peregrinação de 1926 cabia em poucas linhas:
| Data da proclamação | 8 de janeiro de 1926 | | Peregrinos estrangeiros na temporada | cerca de 90 mil | | Duração do cerco de Jidá | quase 12 meses | | Quarentena na ilha de Kamaran | até 10 dias | | Reconhecimento britânico | maio de 1927 | | Unificação do reino | setembro de 1932 |
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O modelo de receita explica a pressa do rei em anunciar normalidade. Cada peregrino pagava taxa de entrada, guia, transporte e hospedagem, e essa cadeia respondia pela maior parte do dinheiro que entrava no Hejaz, num país sem indústria, sem agricultura de exportação e sem petróleo conhecido.
O primeiro teste da nova administração deu errado em público. Em junho de 1926 a caravana egípcia chegou com o mahmal, o palanquim cerimonial coberto de bordado que o Egito enviava havia séculos, acompanhado de banda militar tocando na aproximação de Meca.
Para os ikhwan aquilo era inovação proibida. Houve apedrejamento, houve tiro de soldado egípcio, morreram peregrinos, o Cairo rompeu relações e suspendeu o envio do mahmal e da cobertura bordada da Caaba, que o Egito fornecia como tradição e como propaganda.
O rei respondeu como comerciante, não como pregador. Pagou indenização, publicou regulamento escrito sobre conduta na cidade sagrada, instalou posto de saúde na estrada de Jidá a Meca e mandou avisar as agências de navegação de que a temporada seguinte teria escolta e tabela de preço fixa.
O anúncio de passagem daquele ano, lido assim, é o documento mais honesto do reinado que começava. O que estava à venda não era conquista nem doutrina, era a garantia de que um homem de Java conseguiria desembarcar em Jidá, cumprir o rito em Meca e voltar para casa contando que deu tudo certo.
"Quando o seu país vive de receber visitante, quanto da sua fé você pode impor sem quebrar o próprio caixa?"
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Guia Jornal de Cem Anos · Novo
A Página do Seu Nascimento
O protocolo de 40 minutos que transforma o jornal daquele dia no presente que ninguém compra pronto.
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Quiz da edição
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Segundo a edição, qual foi a primeira potência estrangeira a reconhecer Abdulaziz ibn Saud como rei, e quando isso aconteceu?
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