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O Sábado que a Fábrica Devolveu
Em 25 de setembro de 1926, a Ford anuncia cinco dias e quarenta horas nas fábricas sem cortar o pagamento semanal.
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Relógio de ponto e chave de boca, 1926
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Em 25 de setembro de 1926, a Ford Motor Company informou à imprensa americana que suas fábricas passariam a operar cinco dias por semana, quarenta horas no total, sem redução do pagamento semanal do operário, e a notícia saiu no New York Times do dia seguinte. No mesmo ano, o Modelo T perdia terreno para o Chevrolet da General Motors, queda de participação documentada por Allan Nevins e Frank Ernest Hill em Ford: Expansion and Challenge, 1915-1933, publicado em 1957.
As duas informações vinham da mesma empresa e do mesmo ano. Uma dizia respeito ao chão de fábrica, com o operário ganhando um dia inteiro fora da linha de montagem. A outra dizia respeito à contabilidade da matriz, com o carro mais vendido do mundo envelhecendo diante de um concorrente que oferecia mais conforto e cores variadas.
A empresa que fazia o anúncio já tinha histórico de decisões que a imprensa tratava como excentricidade generosa. Em 5 de janeiro de 1914, a Ford anunciara o salário de cinco dólares por jornada de oito horas em Highland Park, mais que o dobro do que pagava até então, medida que reduziu a rotatividade brutal das linhas e virou manchete nos Estados Unidos e na Europa.
A jornada normal da indústria americana em 1926 era de seis dias, com o sábado trabalhado até o começo da tarde e um total semanal na casa das quarenta e oito horas. O sábado livre existia em setores isolados e em fábricas pequenas, quase sempre com corte proporcional no pagamento. Manter o valor da semana e tirar um dia era outra conversa.
O argumento público de Henry Ford para a mudança não falava em descanso nem em saúde do trabalhador. Falava em mercado. Ele desenvolveu a tese numa entrevista ao jornalista Samuel Crowther, publicada na revista World's Work de outubro de 1926, e a lógica era direta: quem passa a semana inteira dentro da fábrica não tem quando usar um automóvel, e quem não usa automóvel não compra o segundo.
A primeira página de hoje é o comunicado daquele fim de setembro, a aritmética que a empresa fez com as horas e o salário, e a reação de uma indústria americana que chamou a decisão de irresponsável.
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I A Primeira Página de Hoje
O sábado que saiu da folha de ponto
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A mudança começou pelos escritórios. Em agosto de 1926, o pessoal administrativo da Ford passou ao regime de cinco dias, e só depois a empresa estendeu o arranjo às linhas de montagem, comunicando a decisão à imprensa em 25 de setembro daquele ano. O complexo do rio Rouge, em Dearborn, e a planta de Highland Park eram as duas engrenagens principais dessa operação.
A aritmética do anúncio cabia em três números. A semana saía de seis jornadas para cinco, o total de horas caía de quarenta e oito para quarenta, e o pagamento semanal do operário ficava onde estava. Como a Ford tinha elevado o piso diário para seis dólares em 1919, manter a semana cheia com um dia a menos significava pagar mais por hora trabalhada.
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Leisure is an indispensable ingredient in a growing consumer market.
Henry Ford, entrevista a Samuel Crowther, World's Work, 1926
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Em 25 de setembro de 1926, a Ford Motor Company anunciou que suas fábricas americanas passariam a trabalhar cinco dias por semana e quarenta horas, sem corte no pagamento semanal, e apresentou a decisão como cálculo de mercado, não como concessão ao trabalhador.
A tese de Ford tinha uma consequência prática que a empresa não escondia. Um automóvel só entra na vida de quem tem estrada e tempo livre para percorrê-la, e o sábado sem apito de fábrica era exatamente a janela em que o operário sairia de casa, gastaria gasolina, pagaria pedágio e voltaria querendo um carro melhor que o do vizinho.
A reação da indústria foi hostil. Associações patronais americanas trataram a semana de cinco dias como convite à ociosidade e à quebra de compromissos de entrega, e boa parte da imprensa de negócios previu que a Ford voltaria atrás no primeiro trimestre de queda. A Federação Americana do Trabalho, que fazia campanha por jornada menor desde o século anterior, recebeu o anúncio como argumento pronto para as próprias negociações.
A ficha do anúncio, item por item:
| Empresa: Ford Motor Company | | Data do comunicado: 25 de setembro de 1926 | | Novo regime nas fábricas: cinco dias, quarenta horas | | Regime anterior: seis dias, cerca de quarenta e oito horas | | Pagamento semanal: mantido, sem corte | | Piso diário vigente desde 1919: seis dólares | | Argumento público: entrevista de Henry Ford a Samuel Crowther, World's Work, outubro de 1926 |
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O que o comunicado não mencionava era o ritmo. A linha de montagem móvel, instalada em Highland Park em 1913, tinha cadência definida pela empresa, e encurtar a semana sem reduzir a produção exigia mais peças por hora de cada posto. O dia livre chegava junto com um turno mais denso.
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II O Que Aconteceu Depois
Doze anos até a lei escrever quarenta horas
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A semana de cinco dias não virou padrão americano por imitação. Levou doze anos e uma lei federal, o Fair Labor Standards Act de 1938, e o próprio operário da Ford só teve contrato coletivo assinado em 1941.
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O ano seguinte ao anúncio desmentiu qualquer ideia de estabilidade. Em 26 de maio de 1927, a Ford encerrou a produção do Modelo T, com cerca de 15 milhões de unidades fabricadas desde 1908, e parou as linhas por meses para reequipar tudo para o Modelo A. Dezenas de milhares de operários ficaram sem trabalho durante a conversão, com semana de cinco dias ou sem ela.
A intervenção federal veio em duas ondas. Os códigos do National Industrial Recovery Act, de 1933, fixaram tetos de jornada por setor até serem derrubados pela Suprema Corte em 1935. O Fair Labor Standards Act, sancionado em 1938, estabeleceu jornada de quarenta e quatro horas no primeiro ano, quarenta e duas no segundo e quarenta a partir de 1940, com hora extra paga a uma vez e meia.
Dentro da Ford, o conflito trabalhista foi mais longo que a legislação. O confronto entre organizadores do sindicato dos trabalhadores automotivos e seguranças da empresa na passarela do complexo do Rouge, em 26 de maio de 1937, virou episódio documentado em fotografia e em processo administrativo, e a empresa só reconheceu o sindicato em junho de 1941, depois de uma greve no mesmo complexo.
O que veio depois, ano a ano:
| 1926: anúncio da semana de cinco dias e quarenta horas nas fábricas da Ford | | 1927: fim do Modelo T e paralisação das linhas para a conversão ao Modelo A | | 1933: códigos de jornada do National Industrial Recovery Act | | 1938: Fair Labor Standards Act fixa jornada federal e hora extra | | 1940: o teto de quarenta horas semanais entra plenamente em vigor | | 1941: a Ford assina o primeiro contrato coletivo com o sindicato automotivo |
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A tese de consumo de Ford envelheceu bem no ponto em que ele apostou e mal no ponto que ele não previu. O mercado americano do pós-guerra absorveu automóvel, eletrodoméstico e viagem de fim de semana em escala que dá razão ao raciocínio de 1926. Já a jornada parou de encolher: a série histórica de horas trabalhadas por pessoa ocupada compilada pela OCDE mostra o indicador americano praticamente estável desde os anos 1950.
A discussão voltou por outro número. O piloto britânico de semana de quatro dias conduzido por 4 Day Week Global com a organização Autonomy e pesquisadores das universidades de Cambridge e Boston College reuniu 61 empresas entre junho e dezembro de 2022, e o relatório publicado em fevereiro de 2023 registrou que 56 delas decidiram manter o formato ao fim do teste. O argumento em uso continua sendo o de Ford, invertido: produtividade por hora, não hora por semana.
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