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O Soco no Camarim do Princess
Em 22 de outubro de 1926, no camarim do Princess Theatre, em Montreal, um estudante testa a barriga de Houdini e ele segue em cartaz.
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O divã vazio do camarim do Princess
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Em outubro de 1926 Harry Houdini tinha 52 anos e vivia a temporada mais cheia da carreira. O espetáculo dele já não era só escapismo: era um programa de três atos, com mágica de palco, os números de fuga e uma última parte inteira dedicada a desmontar médiuns ao vivo, com truque de mesa girando e ardósia escrevendo sozinha explicados diante da plateia.
A cruzada contra os médiuns tinha custo. Ele testemunhava em audiências no Congresso americano, mantinha investigadores infiltrados em sessões espíritas e recebia carta de ameaça com frequência suficiente para que a esposa, Bess, guardasse as piores numa gaveta separada do escritório da casa em Nova York.
O corpo também cobrava. Ele treinava desde a adolescência para receber golpe no abdome com a musculatura contraída, exibia essa resistência como parte do repertório e deixava que conhecidos batessem nele, sempre com aviso prévio e com ele de pé, respiração travada e barriga endurecida.
A temporada de 1926 começou a machucar de verdade em Albany. Na noite de 19 de outubro, durante a montagem da Cela de Tortura Chinesa, o aparelho que o suspendia de cabeça para baixo dentro de um tanque de água prensou o tornozelo esquerdo dele, e o osso quebrou ali, com a casa cheia.
O que ele fez com a fratura explica o resto. Recusou o hospital, aceitou uma tala improvisada, terminou o número naquela mesma noite e seguiu com a companhia inteira para o compromisso seguinte, porque cancelar significava devolver bilheteria, pagar equipe parada e abrir espaço para a concorrência de vaudeville.
O destino seguinte era Montreal, onde ele tinha uma semana de contrato no Princess Theatre e uma palestra marcada na Universidade McGill sobre fraude espírita. A palestra encheu, rendeu convite de estudantes para visitá-lo no teatro e trouxe rapazes desconhecidos para dentro do camarim dele.
A primeira página de hoje começa numa manhã de 22 de outubro, com o mágico deitado num divã de camarim, o pé engessado apoiado e a porta aberta para três estudantes que ele tinha acabado de conhecer.
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I A Primeira Página de Hoje
O estudante de McGill e o divã do camarim
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Na manhã de sexta-feira, 22 de outubro de 1926, Harry Houdini estava deitado num divã do camarim do Princess Theatre, em Montreal, lendo correspondência atrasada enquanto o tornozelo quebrado descansava sobre uma almofada. Três estudantes da McGill tinham subido para vê-lo entre compromissos.
Um deles desenhava. Sam Smilovitz fazia um retrato a lápis do mágico deitado, e a conversa corria solta sobre a palestra da véspera, sobre truque de médium e sobre a resistência física que Houdini vendia no palco havia mais de vinte anos.
A pergunta veio do terceiro rapaz. J. Gordon Whitehead, mais velho que os colegas, quis saber se era verdade que o mágico aguentava qualquer golpe no estômago sem sentir nada, e Houdini respondeu de forma vaga, ainda recostado, sem se levantar do divã.
Whitehead não esperou autorização. Ele desferiu uma sequência rápida de socos no abdome do homem deitado, quatro ou cinco segundo os relatos dos estudantes presentes, e só parou quando Houdini ergueu a mão e pediu que ele parasse.
O que os presentes anotaram sobre a cena cabe em poucas linhas:
| Data | 22 de outubro de 1926 | | Cidade | Montreal | | Idade de Houdini | 52 anos | | Estado do tornozelo esquerdo | quebrado três dias antes | | Golpes desferidos | entre quatro e cinco | | Aviso prévio | nenhum |
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A defesa que ele treinava desde os quinze anos dependia de uma coisa só, o tempo de contrair o abdome antes do impacto, e naquela manhã ele estava deitado, com a musculatura relaxada e o peso do corpo apoiado numa almofada.
A explicação dele foi imediata. Segundo os estudantes, Houdini disse que teria aguentado sem problema se tivesse tido tempo de se preparar, e pediu que o rapaz não repetisse, mas não interrompeu a visita nem chamou ninguém da produção.
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A maneira mais fácil de atrair uma multidão é deixar que se saiba que, em determinada hora e em determinado lugar, alguém vai tentar algo que, em caso de falha, significa o fim imediato.
Harry Houdini, Miracle Mongers and Their Methods, 1920
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O espetáculo daquela noite aconteceu normalmente. Ele cumpriu os três atos com o pé engessado e a dor abdominal já instalada, e a plateia de Montreal não teve motivo para desconfiar de que algo tinha acontecido no camarim durante o dia.
A companhia embarcou no trem noturno rumo a Detroit logo depois da última apresentação da temporada canadense. Houdini passou a viagem com dor crescente e febre subindo, sem procurar médico em nenhuma parada, e chegou à cidade seguinte com o compromisso do Garrick Theatre marcado para a mesma noite.
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II O Que Aconteceu Depois
Dez dias que ele se recusou a interromper
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Um médico examinou Houdini no hotel de Detroit, disse que era apendicite aguda, recomendou cirurgia imediata e ouviu que havia uma casa lotada esperando, então o mágico foi para o teatro com 40 graus de febre e subiu ao palco assim mesmo.
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A noite de 24 de outubro foi a última em cartaz. Ele atravessou os três atos com pausas para se apoiar nos bastidores, precisou ser ajudado por assistentes entre os números e desmaiou depois de baixar a cortina, já sem conseguir ficar de pé sozinho.
O hospital só veio depois da insistência de Bess e do empresário. Ele foi internado no Grace Hospital na madrugada seguinte, operado no dia 25, e os cirurgiões encontraram o apêndice já rompido e a infecção espalhada por toda a cavidade abdominal.
O quadro era peritonite difusa, e em 1926 a medicina não tinha o que oferecer contra ela. A penicilina só seria descoberta dois anos depois e a estreptomicina levaria quase vinte anos, então o tratamento se resumia a drenagem, soro e uma segunda cirurgia que não mudou o desfecho.
Ele resistiu uma semana e não passou do dia 31 de outubro, um domingo de Halloween. A notícia correu os Estados Unidos no mesmo dia e transformou a data numa efeméride permanente da mágica americana, repetida em homenagem todo ano desde então.
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Não acredite em nenhuma representação espiritualista de qualquer tipo antes de tê-la investigado.
Harry Houdini, A Magician Among the Spirits, 1924
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A discussão médica sobre a causa começou logo. A seguradora tinha vendido uma apólice com cláusula de dobro em caso de acidente, e a família sustentou que os socos do camarim provocaram a ruptura do apêndice, versão que a companhia acabou aceitando e pagando em dobro a Bess.
A medicina moderna trata a ligação com ceticismo. Apendicite por trauma é rara, os sintomas dele podem ter começado antes de Montreal, e a leitura mais aceita hoje é a de que o soco não causou o quadro, apenas coincidiu com um apêndice que já estava inflamado e ignorado.
O que ninguém contesta é a decisão de continuar em cartaz. Entre o camarim de Montreal e a maca de Detroit passaram dias inteiros de dor com diagnóstico disponível a qualquer momento, e ele escolheu cumprir contrato, viajar de trem e subir ao palco em vez de procurar um cirurgião.
O corpo foi enterrado num caixão de bronze que ele mesmo tinha encomendado como cenário. A peça fora feita para um número de enterrado vivo que ele planejava estrear e nunca chegou a montar, e virou o caixão de verdade no cemitério de Machpelah, no Queens.
Bess passou dez anos tentando o contato que o marido tinha prometido testar. Os dois haviam combinado uma senha secreta, as palavras Rosabelle believe, e ela encerrou a série de sessões no terraço de um hotel de Los Angeles em 1936, apagando a vela que mantinha acesa desde 1926.
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