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Os 2,5 Segundos na Fazenda da Tia Effie
Em 16 de março de 1926, Robert Goddard acende o primeiro foguete de combustível líquido num campo de repolho em Auburn, Massachusetts.
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O cano fincado na neve e o maçarico na vara
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Em janeiro de 1920, a Smithsonian Institution publicou em Washington um caderno de 69 páginas com um título seco, Um Método de Alcançar Altitudes Extremas. O autor era Robert Hutchings Goddard, professor de física da Clark University, em Worcester, Massachusetts.
A maior parte do texto era cálculo de propelente, de bocal e de rendimento. O problema apareceu nas últimas páginas, num apêndice curto sobre o alcance máximo do aparelho.
Ali o professor estimava quanta massa seria preciso para levar uma carga de pó de magnésio até a Lua e queimá-la na superfície, de modo que um telescópio na Terra confirmasse a chegada. Era uma nota de rodapé matemática, não um projeto de viagem.
A assessoria da Smithsonian distribuiu um resumo à imprensa em 11 de janeiro. No dia seguinte a história estava na primeira página do New York Times, e em uma semana o cálculo de 69 páginas tinha virado, nos jornais do país, um foguete com passageiros a bordo rumo à Lua.
Chegaram cartas de voluntários pedindo lugar na viagem. Chegou também um editorial que ele guardaria pelo resto da vida.
Goddard tinha 37 anos e uma bolsa de cinco mil dólares concedida pela Smithsonian em 1917. A partir daquele janeiro ele mudou o método de trabalho, sem mudar o objetivo.
Passou a testar de portas fechadas, a anotar cada ensaio num caderno próprio e a responder pouco ao que saía impresso.
Entre 1921 e 1925 o laboratório de física da Clark virou bancada de motor. O professor abandonou a pólvora, foi para o par gasolina e oxigênio líquido, e passou três anos brigando com bomba, válvula e bocal derretido.
Em 6 de dezembro de 1925, num suporte fixo dentro do laboratório, um motor movido a esse par levantou o próprio peso pela primeira vez.
Faltava a parte que nenhum suporte fixo resolve: soltar o foguete e ver se ele sobe sozinho.
A primeira página de hoje começa num campo de repolho coberto de neve, a poucos quilômetros do campus, com três testemunhas e uma câmera de cinema.
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I A Primeira Página de Hoje
A câmera que ficou sem filme
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A fazenda era da tia Effie Ward, parente da família, em Auburn, no condado de Worcester. Ficava a poucos quilômetros do campus, e o terreno escolhido para o teste era a horta que no verão dava repolho.
Em 16 de março de 1926 o campo estava coberto de neve. Um carro saiu de Worcester pela manhã com o professor, a mulher dele, Esther, e Henry Sachs, construtor de instrumentos da Clark. Percy Roope, professor assistente de física, completou o grupo no local.
O aparelho montado na neve não se parecia com foguete nenhum. A câmara de combustão e o bocal ficavam em cima, e os dois tanques ficavam embaixo, ligados por tubos compridos.
A intenção era puxar o peso pela frente em vez de empurrar por trás. Um cone de amianto protegia os tanques do jato quente que descia por fora.
O suporte de lançamento era uma armação piramidal de cano de ferro, fincada direto na neve. Carregado, o conjunto pesava 4,6 quilos; vazio, 2,6.
O oxidante era oxigênio líquido, guardado a 183 graus negativos, e o combustível era gasolina comum. A pressão do próprio oxigênio evaporando empurrava os dois para a câmara.
A ignição não tinha nada de elétrico. Sachs acendeu um maçarico de álcool preso na ponta de uma vara, encostou a chama no bocal e se afastou.
Esther levou uma câmera de cinema de manivela para registrar a subida. O rolo carregado dava para poucos segundos de tomada, e ela começou a filmar assim que a chama apareceu.
Às duas e meia da tarde o professor puxou o cordão da válvula. O motor acendeu com um rugido firme e o foguete não saiu do lugar.
Ficou queimando ali, preso ao próprio peso, enquanto os tanques esvaziavam. Quando ficou leve o bastante, subiu devagar, passou da armação e disparou em curva para a esquerda.
Nesse ponto a câmera já tinha acabado o filme. Não existe imagem em movimento do primeiro voo de um foguete de combustível líquido, existem as fotos do antes e a marca na neve do depois.
O voo inteiro durou dois segundos e meio, alcançou 12,5 metros de altura e terminou a 56 metros do suporte, dentro da horta de repolho da tia Effie.
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Testei o foguete às 14h30. Subiu 41 pés e percorreu 184 pés, em dois segundos e meio, depois que a metade inferior do bocal queimou.
Robert Goddard, anotação de diário, 16 de março de 1926
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A metade inferior do bocal derreteu durante a queima, e o aparelho voou os últimos metros com o motor pela metade, a uma média de 96 quilômetros por hora.
Fora daquelas quatro pessoas, ninguém soube do teste naquele dia. O grupo recolheu as peças e voltou para Worcester.
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II O Que Aconteceu Depois
A oficina no rancho Mescalero
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A primeira página do dia seguinte não trouxe uma linha sobre o campo de repolho. O relatório foi para a Smithsonian em maio, e o teste seguinte em Auburn acabaria numa proibição assinada pelo estado de Massachusetts.
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Em 5 de maio de 1926, Goddard mandou à Smithsonian o relatório do voo, com desenho, pesos e cronometragem. O acordo com a instituição era de financiamento, não de divulgação, e o documento ficou no arquivo.
Em 17 de julho de 1929 ele lançou em Auburn um foguete bem maior, com barômetro, termômetro e uma câmera pequena a bordo.
O estrondo levou a vizinhança a telefonar para a polícia, e duas ambulâncias saíram à procura de um avião caído. Dessa vez os repórteres de Worcester chegaram ao campo.
O resultado prático foi um veto: o corpo de bombeiros do estado proibiu novos lançamentos em Massachusetts, e os testes migraram para o campo de artilharia de Camp Devens.
A publicidade indesejada trouxe junto o leitor certo. Charles Lindbergh, dois anos depois de atravessar o Atlântico sozinho, procurou o professor em Worcester em novembro de 1929 e passou uma tarde ouvindo o plano inteiro.
Lindbergh levou o caso a Daniel Guggenheim. Em 1930 saiu uma doação para quatro anos de pesquisa, o bastante para montar oficina, equipe fixa e campo de provas próprio.
Em julho daquele ano a família mudou para o Novo México. O endereço virou o rancho Mescalero, nos arredores de Roswell, e o campo de provas ficou em Eden Valley, no deserto.
A escolha era técnica: céu limpo o ano inteiro e nenhum vizinho por perto.
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Não pode haver ideia de terminar, porque mirar as estrelas, no sentido literal e no figurado, é um problema para ocupar gerações, de modo que, por mais que se avance, existe sempre a emoção de estar apenas começando.
Robert Goddard, carta a H. G. Wells, 20 de abril de 1932
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A lista do que saiu daquela oficina é a lista do que todo foguete usa hoje. Giroscópio de controle, palhetas metálicas dentro do jato para corrigir a rota, bocal articulado, bomba movida pelo próprio propelente e recuperação por paraquedas.
Em 8 de março de 1935 um dos aparelhos passou de 1.100 quilômetros por hora, mais rápido que o som. Em 26 de março de 1937 outro subiu a cerca de 2.700 metros, a maior altura que ele registrou.
Nos anos da guerra o trabalho virou motor de decolagem assistida para hidroaviões da Marinha americana. O foguete de longo alcance oferecido às Forças Armadas tinha sido recusado.
Em 10 de agosto de 1945, aos 62 anos, o caderno de anotações se fechou em Baltimore, cinco dias antes do anúncio da rendição do Japão.
Esther Goddard passou as duas décadas seguintes organizando cadernos, fotos e desenhos. Do arquivo saíram 131 patentes concedidas depois, somadas às 83 obtidas em vida, num total de 214.
Em 1960 o governo americano pagou um milhão de dólares à viúva e à Fundação Guggenheim pelo uso daquelas patentes em foguetes militares e civis, o maior acordo do tipo fechado pelo país até então.
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