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Os 24 segundos que a Inglaterra esperou 203 anos para ver
Em 29/6/1927, trens noturnos levam multidões ao norte da Inglaterra para o primeiro eclipse total desde 1724.
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Giggleswick, Yorkshire, 29 de junho de 1927
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Às 6h23 de 29/6/1927, em Giggleswick, no condado de Yorkshire, o Astrônomo Real Frank Dyson (o astrônomo oficial da Coroa britânica) fotografou o Sol coberto pela Lua num céu aberto, segundo o relatório que ele publicou em 1927 nos Monthly Notices da Royal Astronomical Society. Na manhã seguinte, o The Times de Londres contou que a maior parte de quem tinha viajado a noite inteira para o norte viu só nuvem cinzenta.
Os dois registros descrevem a mesma faixa de sombra e os mesmos minutos. Um fala de chapas fotográficas nítidas. O outro, de multidões molhadas olhando para um teto baixo e branco.
A Inglaterra não via um eclipse total do Sol desde 22/5/1724. Nenhum inglês vivo em 1927 tinha visto o Sol sumir inteiro do céu do próprio país, e nenhum avô de ninguém tinha contado a cena.
A faixa da totalidade (a fase em que a Lua cobre o disco do Sol por completo) entrava pelo norte do País de Gales, cruzava Lancashire e Yorkshire e saía pela costa de Durham, rumo ao Mar do Norte.
Quem morava em Londres, Birmingham ou Bristol estava fora dela. Para ver a escuridão completa, era preciso subir o mapa, e chegar antes do amanhecer.
As companhias ferroviárias montaram trens especiais que partiam perto da meia-noite. Passageiros dormiam sentados, desciam em estações de vilarejo ainda no escuro e subiam morros de pasto com cobertores, garrafas térmicas e pedaços de vidro esfumaçado na chama de vela.
O prêmio da viagem era curto. No trecho mais longo da faixa, a totalidade durou cerca de 24 segundos. Em quase todo o resto, menos que esse tempo.
Às cinco da manhã, as nuvens já cobriam boa parte de Lancashire. O céu de Yorkshire se fechava e abria em intervalos que ninguém sabia prever.
As páginas abaixo começam na estação de King's Cross, de onde saiu o trem de uma escritora que chegou a um morro de Yorkshire sem saber se o Sol apareceria.
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I A Primeira Página de Hoje
O trem da meia-noite para Bardon Fell
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A escritora Virginia Woolf embarcou na noite de 28/6/1927 em King's Cross, em Londres, num trem para o norte. Ia com o marido, Leonard Woolf, e com os amigos Vita Sackville-West e Harold Nicolson, segundo o diário que ela manteve naquele ano.
O destino era Richmond, em Yorkshire, dentro da faixa da totalidade. De lá, o grupo seguiu de carro até Bardon Fell, um morro de pasto aberto, escolhido porque dava vista larga para o leste, de onde o Sol nasceria.
Eles não foram os únicos. As duas maiores companhias ferroviárias do país, a LMS (London, Midland and Scottish Railway) e a LNER (London and North Eastern Railway), venderam passagens de excursão do eclipse para dezenas de cidades do norte.
Os trens corriam de madrugada. Muitos passageiros nunca tinham saído de casa naquela hora, e os jornais descreveram vagões cheios de gente acordada, jogando cartas e comendo sanduíche à luz fraca das lâmpadas.
Nas estações pequenas, o desembarque virou procissão. Fazendeiros de Yorkshire abriram porteiras, cobraram entrada em alguns pastos e venderam leite e chá a quem chegava.
No alto de Bardon Fell, Woolf anotou o frio, a grama molhada e o céu de nuvens rápidas. O Sol aparecia e sumia entre elas.
A viagem inteira apostava em segundos que o céu podia negar sem aviso. |
O eclipse começou com a parcialidade (a fase em que a Lua cobre só uma parte do Sol), visível a olho protegido pelo vidro esfumaçado. A luz foi ficando estranha, sem sombra definida, como num fim de tarde fora de hora.
Em Bardon Fell, as nuvens afinaram perto do minuto decisivo. O grupo de Woolf viu a escuridão chegar, com a cor sumindo da paisagem, embora o disco coberto do Sol tenha ficado atrás de um véu.
Ela escreveu no diário, no dia seguinte, uma das frases mais citadas sobre aquela manhã:
“Tínhamos visto o mundo morto.” Virginia Woolf, diário, 30 de junho de 1927 |
A luz voltou de repente, primeiro como um brilho na borda das nuvens. Para Woolf, a sensação foi de alívio, como se a vida tivesse sido devolvida ao pasto.
O grupo desceu o morro, voltou a Richmond e tomou o trem de volta a Londres na mesma jornada, sem ter dormido numa cama desde a véspera.
A rota de quem foi ver:
| 28/6/1927, noite: partida de King's Cross, Londres | | 29/6/1927, madrugada: chegada a Richmond, Yorkshire | | 29/6/1927, 6h23: totalidade sobre Yorkshire | | Ponto de observação de Woolf: Bardon Fell |
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II O Que Aconteceu Depois
O céu aberto sobre Giggleswick
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Frank Dyson escolheu Giggleswick meses antes. A vila ficava perto da linha central da sombra, e os registros meteorológicos da região indicavam boa chance de céu limpo no fim de junho.
A expedição do Observatório Real de Greenwich montou os telescópios no terreno da escola de Giggleswick. O objetivo era fotografar a coroa (a auréola de gás que envolve o Sol e só aparece quando o disco some).
Na hora marcada, uma abertura nas nuvens passou exatamente sobre o acampamento. Dyson e a equipe fizeram as chapas durante os cerca de 23 segundos de totalidade da vila.
A poucos quilômetros dali, outros astrônomos olhavam para nuvem fechada e guardaram as chapas em branco. |
O resultado da equipe de Greenwich saiu publicado nos Monthly Notices da Royal Astronomical Society ainda em 1927. As fotos mostraram a coroa e as protuberâncias (jatos de gás avermelhado que saltam da borda do Sol).
O eclipse não acabou na Inglaterra. A sombra cruzou o Mar do Norte e passou pela Noruega, pela Suécia e pela Finlândia, onde outras equipes também tentaram fotografar a coroa.
Em terra inglesa, a sorte de Giggleswick foi a exceção. Em Southport, na costa de Lancashire, e em boa parte de Durham, a nuvem não abriu, e muita gente viu só o céu escurecer e clarear de novo.
Mesmo debaixo da nuvem, a totalidade foi visível de um jeito: a luz caiu quase à de noite, pássaros silenciaram e o vento esfriou. Quem estava no pasto sentiu a sombra, ainda que não visse o Sol.
Virginia Woolf transformou a manhã em ensaio. The Sun and the Fish (O Sol e o Peixe) saiu em 1928 na revista Time and Tide e comparou o eclipse a uma visita a um aquário em Londres.
O que não se sabe é quantas pessoas viajaram de fato para a faixa. Cada companhia ferroviária contava as próprias passagens, os carros e ônibus não tinham registro, e não sobrou uma contagem oficial única daquela madrugada.
A Inglaterra continental só voltou a ter um eclipse total em 11/8/1999, na Cornualha. Também ali a nuvem cobriu a maior parte da faixa, e a cena de 1927 se repetiu com outra geração.
A cronologia depois da manhã:
| 29/6/1927: chapas de Dyson em Giggleswick | | 1927: relatório nos Monthly Notices | | 1928: ensaio The Sun and the Fish, de Virginia Woolf | | 11/8/1999: eclipse total na Cornualha | | 23/9/2090: próximo eclipse total previsto sobre a Inglaterra |
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