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Os 25 minutos de Metropolis escondidos em Buenos Aires

Em 10/1/1927 Metropolis estreia em Berlim com mais de 2h30; meses depois perde um quarto da metragem, reencontrada em 2008.

Rolo de película antiga saindo de uma lata sobre um programa de cinema alemão.

Lata de filme e programa de cinema, Berlim, 1927

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Na noite de 10/1/1927, Metropolis estreou em Berlim com 4.189 metros de película, segundo o registro da Fundação Friedrich Wilhelm Murnau, guardiã do filme na Alemanha. Até julho de 2008, a cópia mais completa guardada em qualquer arquivo do mundo tinha cerca de um quarto a menos, como documentou o Museo del Cine de Buenos Aires ao anunciar o achado.

O filme mais caro do cinema alemão da época passou oito décadas sem ser visto do jeito que a plateia da estreia viu. Os dois registros estão certos, e a distância entre eles é a história desta página.

A plateia daquela noite entrou no Ufa-Palast am Zoo, o maior cinema da Ufa (Universum Film AG, a principal produtora alemã), perto do zoológico de Berlim. Na tela, uma cidade do ano 2000 com torres, pontes suspensas e aviões entre os prédios.

Embaixo da cidade, operários trabalhavam em turnos contra máquinas que nunca paravam. Em cima, os filhos dos donos jogavam em jardins. O roteiro amarrava as duas camadas numa história de amor, uma revolta e uma mulher de metal.

A projeção passava de duas horas e meia. Uma orquestra tocava ao vivo a partitura escrita para o filme pelo compositor Gottfried Huppertz, porque o cinema ainda era mudo e a música vinha do fosso.

Ali estava o pedaço inteiro. Personagens secundários tinham trama própria, e um deles, o agente chamado Magro, seguia o herói pela cidade por ordem do pai.

Poucos meses depois, esses trechos sumiram das salas. Primeiro nos Estados Unidos, depois na própria Alemanha, a versão que circulava ficou mais curta, e ninguém guardou a sobra.

A cópia longa ainda existia em algum lugar, mas ninguém sabia onde. Ela atravessou o oceano em 1928 e ficou 80 anos numa lata de cinema argentina.

As páginas abaixo começam na noite de janeiro em Berlim, com a equipe e o dinheiro que levaram o filme à tela.

Continue lendo ↓

 
 

I  A Primeira Página de Hoje

A noite do Ufa-Palast

Metropolis foi dirigido por Fritz Lang, cineasta austríaco radicado em Berlim, a partir de um romance da roteirista Thea von Harbou, sua mulher, publicado em 1925. O produtor era Erich Pommer, chefe de produção da Ufa.

As filmagens ocuparam 1925 e boa parte de 1926 nos estúdios da Ufa em Neubabelsberg, nos arredores de Berlim. O orçamento previsto estourou várias vezes ao longo do caminho.

Segundo os números divulgados pela própria Ufa, o custo final chegou a cerca de 5 milhões de marcos, a moeda alemã da época. Nenhum filme alemão tinha gastado tanto.

Parte do dinheiro foi para a tela. O fotógrafo Eugen Schüfftan criou um truque com espelhos, depois batizado de processo Schüfftan, que refletia maquetes pequenas e atores reais na mesma imagem, e a cidade parecia ter centenas de metros de altura.

O elenco tinha nomes pouco conhecidos fora da Alemanha. Brigitte Helm, com 19 anos, fazia dois papéis: Maria, a moça que prega paz aos operários, e a cópia de metal criada à imagem dela.

Alfred Abel era Joh Fredersen, o dono da cidade. Gustav Fröhlich era Freder, o filho que desce às máquinas e descobre como vivem os trabalhadores. Rudolf Klein-Rogge fazia Rotwang, o inventor que constrói a máquina-mulher.

O letreiro que abre e fecha a trama resume a tese de Thea von Harbou:

“Mittler zwischen Hirn und Händen muss das Herz sein.” ("O mediador entre a cabeça e as mãos deve ser o coração.")

Thea von Harbou, intertítulo de Metropolis, 1927

Na estreia, a crítica alemã elogiou os cenários e torceu o nariz para o roteiro. A plateia aplaudiu as imagens da cidade, e a bilheteria ficou abaixo do custo.

Metropolis estreou como o filme mais caro da Alemanha e não pagou a conta. A Ufa chegou ao começo de 1927 afundada em dívidas, e o prejuízo pesou na decisão de cortar o filme.

Em março de 1927, o empresário Alfred Hugenberg, dono de jornais e editoras, comprou o controle da Ufa. A nova direção queria um filme que coubesse em mais sessões por noite.

A ficha da estreia:

Data: 10/1/1927
Local: Ufa-Palast am Zoo, Berlim
Direção: Fritz Lang
Roteiro: Thea von Harbou
Metragem: 4.189 metros
Duração: mais de 2h30
Música: Gottfried Huppertz, com orquestra ao vivo
 
 

II  O Que Aconteceu Depois

A tesoura e a lata argentina

A primeira tesoura veio de fora. Pelo acordo Parufamet, a Ufa tinha cedido a distribuição nos Estados Unidos à Paramount e à Metro-Goldwyn-Mayer em troca de um empréstimo, e a Paramount lançou Metropolis em Nova York em março de 1927.

O dramaturgo americano Channing Pollock reescreveu os letreiros e remontou a história. Personagens sumiram, a mãe de Freder e a rivalidade entre Fredersen e Rotwang por uma mulher saíram da trama, e o filme perdeu quase uma hora.

Em agosto de 1927, a própria Ufa lançou na Alemanha uma versão encurtada para 3.241 metros, conforme o registro de censura da época citado pela Fundação Murnau. O material cortado não foi arquivado.

A crítica mais famosa saiu nos Estados Unidos, assinada por um escritor de ficção científica:

“I have recently seen the silliest film.” ("Vi há pouco o filme mais tolo.")

H. G. Wells, "Mr. Wells Reviews a Current Film", The New York Times, 17/4/1927

Nas décadas seguintes, arquivos da Europa e dos Estados Unidos tentaram remontar o filme juntando cópias parciais. Em 1984, o produtor Giorgio Moroder lançou uma versão colorida de 80 minutos com trilha de rock.

Em 2001, a Fundação Murnau apresentou uma restauração com letreiros explicativos no lugar das cenas perdidas. Também em 2001, Metropolis entrou no registro Memória do Mundo da UNESCO, o primeiro filme da lista.

O pedaço que faltava estava em Buenos Aires. Em 1928, um distribuidor argentino importou uma cópia de 35 milímetros da versão longa, antes dos cortes chegarem às cópias de exportação.

Anos depois, um colecionador copiou o filme para 16 milímetros, bitola menor e mais barata, e o negativo chegou ao Museo del Cine Pablo Ducrós Hicken em 1992. Ninguém ali sabia que a lata guardava a versão da estreia.

Em julho de 2008, Paula Félix-Didier, diretora do museu, e o pesquisador Fernando Martín Peña conferiram a lata e acharam cerca de 25 minutos que o mundo dava como perdidos.

A cópia estava riscada e o quadro vinha cortado nas bordas. Mesmo assim, a Fundação Murnau reconstruiu o filme e o reestreou em 12/2/2010, no Festival de Berlim, com orquestra tocando a partitura de Huppertz.

Com o achado, o Magro, vivido pelo ator Fritz Rasp, voltou inteiro à tela, e também a trama de Georgy, o operário de número 11811 que troca de lugar com Freder.

Cerca de 5 minutos continuam sem cópia conhecida, segundo a própria fundação. Nessas lacunas, a versão restaurada usa letreiros que contam o que acontecia.

A cronologia do filme:

1925: romance de Thea von Harbou
1927: estreia em Berlim e cortes nos Estados Unidos e na Alemanha
1928: cópia longa chega à Argentina
1984: versão colorida de Giorgio Moroder
2001: restauração da Fundação Murnau e registro da UNESCO
2008: achado no Museo del Cine de Buenos Aires
2010: reestreia no Festival de Berlim
 

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III  O Anúncio da Página 3

O programa da noite de estreia

A página: nos dias seguintes a 10/1/1927, os jornais de Berlim noticiaram a estreia e reproduziram o material de divulgação da Ufa, com os números da produção e fotos da cidade de maquete.

O anúncio: a Ufa vendeu Metropolis como o filme do futuro. Os cartazes mostravam a mulher de metal diante dos arranha-céus, e o desenho art déco, estilo decorativo de linhas geométricas da época, virou imagem do filme.

A coluna: o programa impresso para a noite de estreia trazia a lista do elenco, a música de Huppertz e a promessa de uma cidade nunca vista. Quem comprava ingresso pagava por uma sessão longa, sem intervalo previsto de outra fita.

A sessão do Ufa-Palast exigia orquestra completa. Cinemas menores do interior alemão recebiam a partitura adaptada para poucos músicos, ou um pianista que improvisava.

A duração mandava na conta do cinema. Um filme de duas horas e meia ocupava a sala que podia exibir dois filmes curtos, e o dono vendia menos ingressos por noite.

Os distribuidores americanos fizeram a mesma conta. A versão da Paramount cabia em mais sessões diárias, e a promessa comercial pesou mais que a do diretor.

Fritz Lang reclamou dos cortes pela vida inteira. Nas entrevistas das décadas seguintes, dizia não gostar do filme, e culpava a mensagem do final escrito com Thea von Harbou, de quem se separou em 1933.

O prédio da estreia não sobreviveu à guerra. O Ufa-Palast am Zoo foi destruído em bombardeios de 1943, e no terreno surgiu em 1957 o Zoo Palast, cinema que sediou o Festival de Berlim por décadas.

A ficha da exibição, item por item:

Cinema: Ufa-Palast am Zoo
Cidade: Berlim
Duração na estreia: mais de 2h30
Música: orquestra ao vivo
Versão americana: Paramount, março de 1927
Versão alemã curta: agosto de 1927

“Se você tivesse 2h30 numa noite de 1927, trocaria duas sessões curtas pela cidade inteira de Metropolis?”

O centenário da estreia cai em 10/1/2027, um domingo. Nessa data, reconfira a metragem e a duração da versão restaurada na página do filme no site da Fundação Friedrich Wilhelm Murnau, em murnau-stiftung.de.

 
 
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Em julho de 2008, a diretora Paula Félix-Didier e o pesquisador Fernando Martín Peña acharam os 25 minutos perdidos de Metropolis em qual lugar?

ANo arquivo da Fundação Murnau, na Alemanha
BNo Museo del Cine, em Buenos Aires
CNos estúdios da Ufa, em Neubabelsberg
DNo Festival de Berlim, em 2010

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