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Os 40 Cientistas no Sótão de Frith Street
Em 26 de janeiro de 1926, quarenta membros da Royal Institution sobem uma escada estreita do Soho para ver uma cabeça de madeira tremer numa tela.
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O disco perfurado e a cabeça de madeira, 1926
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Um caixote de chá servia de base. Em cima dele, uma lata de biscoito abrigava a lâmpada de projeção, um disco de papelão girava preso a agulhas de cerzir, e lentes de farol de bicicleta ficavam fixadas com cera de lacre.
O aparelho ocupava dois cômodos alugados no último andar do número 22 da Frith Street, no Soho de Londres. O homem que montou aquilo se chamava John Logie Baird, escocês de Helensburgh, 37 anos, com um histórico de negócios que não pegaram: geleia em Trinidad, meia de absorver umidade, sabonete vendido de porta em porta.
A ideia não era dele. Em 1884, o alemão Paul Nipkow patenteou em Berlim um disco perfurado em espiral que quebrava uma imagem em linhas ao girar. A patente expirou sem que ninguém tirasse dela um rosto humano em movimento.
O dinheiro vinha de fora. Will Day, dono de uma casa de material cinematográfico em Londres, tinha entrado com algumas centenas de libras, o bastante para pagar aluguel, válvula e uma conta de luz de oficina.
Na tarde de 2 de outubro de 1925, o disco de Frith Street entregou pela primeira vez uma imagem com gradação de luz e sombra: o rosto pintado de um boneco de ventríloquo apareceu na tela do receptor com relevo, e não como recorte preto contra o claro.
Baird desceu a escada correndo e voltou puxando pelo braço William Taynton, office boy de vinte anos da firma do andar de baixo. Sentou o rapaz na frente da lente, ajustou a lâmpada e pagou meia coroa para ele continuar sentado. Foi o primeiro rosto humano televisionado.
Faltava a parte que nenhum inventor resolve sozinho. Demonstração num sótão diante de amigos e do financiador não vira registro, vira boato. Ele precisava de testemunhas com nome e cargo, cuja assinatura um jornal de Londres aceitasse imprimir.
A primeira página de hoje começa no convite que ele mandou para a Royal Institution, a casa que decidia, em Londres, o que contava como ciência e o que era truque de feira.
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I A Primeira Página de Hoje
Dois de cada vez na escada do número 22
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A escada tinha largura para uma pessoa. Na noite de terça-feira, 26 de janeiro de 1926, quarenta membros da Royal Institution e um repórter do The Times subiram três lances daquele corredor estreito do Soho, de sobretudo, em fila indiana.
O laboratório não comportava quarenta pessoas. Entraram de dois em dois, de três em três, e o resto esperou no patamar com o chapéu na mão, ouvindo o zumbido do motor atravessar a parede.
Lá dentro havia dois quartos ligados por cabo. Num ficava o transmissor: o disco perfurado girando na frente de uma lente, com refletores apontados para o assunto. No outro, o receptor, uma tela do tamanho de um cartão-postal onde a imagem se formava em laranja.
O assunto era uma cabeça de madeira. Baird usava a cabeça de um boneco de ventríloquo, apelidada de Stooky Bill, empoleirada num banquinho na frente do aparelho.
A escolha não era de estilo. A luz necessária para arrancar contraste de um rosto era tão forte e tão quente que ninguém aguentava ficar sentado ali de olhos abertos. A tinta do boneco rachou com o calor, e o cabelo colado na cabeça chamuscou nas sessões longas.
A imagem tinha 30 linhas e cinco quadros por segundo. Quem olhava via uma cabeça pequena, borrada, tremendo na tela, com sombra e luz no lugar certo: a boca abria quando a boca do boneco abria, do outro lado da parede.
Depois do boneco veio gente. Os membros da Royal Institution foram convidados a sentar no banquinho, um a um, e a serem vistos pelos colegas no cômodo ao lado, que reconheciam o rosto de quem tinha subido a escada junto com eles.
O repórter do The Times ficou até o fim. A nota saiu dois dias depois, em 28 de janeiro de 1926, entre os assuntos de ciência aplicada do jornal.
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A imagem transmitida era fraca e muitas vezes borrada, mas sustentou a alegação de que, pelo televisor, é possível transmitir e reproduzir instantaneamente os detalhes do movimento e coisas como o jogo de expressão de um rosto.
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A palavra televisor era do próprio Baird, nome que ele deu ao aparelho e registrou como marca. Nenhum diário de Londres tinha coluna onde encaixar aquela categoria de notícia.
Quarenta pessoas de sobretudo num sótão de Soho viram, em 30 linhas e cinco quadros por segundo, a máquina que meio século depois estaria em quase toda sala de estar do planeta, e desceram a escada sem uma palavra pronta para descrevê-la.
A demonstração foi repetida naquela semana para quem pedisse. No fim de janeiro o inventor tinha o que não tinha em outubro: quarenta testemunhas com título acadêmico e um recorte de jornal com data.
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II O Que Aconteceu Depois
O interruptor de Alexandra Palace
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A primeira página daqueles dias registrou a demonstração e o nome do aparelho. O que ela não podia registrar é que aquele sistema seria o primeiro a entrar no ar em serviço regular e o primeiro a ser desligado, onze anos depois, pela emissora que o havia colocado lá.
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A empresa veio em seguida. A Baird Television Development Company passou a vender ações e a montar demonstração pública.
Em maio de 1927 ele mandou imagem de Londres a Glasgow por 438 milhas de linha telefônica alugada dos Correios. Em fevereiro de 1928 a imagem atravessou o Atlântico, de um transmissor de onda curta em Coulsdon até Hartsdale, no estado de Nova York.
Em julho daquele ano ele mostrou cor, com três espirais de furos e filtros no mesmo disco. Cada um desses passos rendeu manchete e nenhum deles rendeu contrato.
O contrato veio em 1929. A BBC abriu horário experimental para as transmissões de 30 linhas, com som e imagem alternados porque só havia um transmissor, e com os dois juntos a partir de 1930.
Em 1930 o aparelho entrou à venda: o Televisor de bancada custava 26 guinéus, perto de nove semanas de salário de um operário, e vendeu cerca de mil unidades.
Enquanto o disco girava em Londres, um laboratório em Hayes trabalhava sem disco nenhum. A equipe da EMI, dirigida por Isaac Shoenberg, desenvolvia a Emitron, câmera sem peça móvel que varria a cena por feixe de elétrons.
Em 1934 a EMI se juntou à Marconi num sistema de 405 linhas, e um comitê do governo presidido por Lord Selsdon recomendou em 1935 que os dois concorressem no ar em semanas alternadas.
Em 2 de novembro de 1936 o Alexandra Palace inaugurou o primeiro serviço regular de televisão de alta definição do mundo: uma semana no ar com as 240 linhas de Baird, a semana seguinte com as 405 da Marconi-EMI.
O sistema do sótão chegou pesado ao teste. Para ganhar definição, ele filmava a cena em película, revelava o filme em 54 segundos dentro do estúdio e varria o negativo ainda molhado, o que prendia a câmera numa cabine e atrasava a imagem em quase um minuto.
Do outro lado, a Emitron cabia num tripé e mostrava o que via na hora. Em 30 de novembro de 1936 um incêndio no Crystal Palace consumiu as instalações da empresa de Baird.
Em fevereiro de 1937 a BBC encerrou a alternância e padronizou as 405 linhas. Onze anos e alguns dias depois da escada de Frith Street, o disco perfurado saiu do ar britânico e não voltou.
O padrão que o substituiu ficou no ar até janeiro de 1985. Baird seguiu trabalhando no que restava e apresentou em 1944 o Telechrome, um tubo de cor totalmente eletrônico.
No número 22 da Frith Street há hoje uma placa azul na parede, no prédio de um café que atravessa a madrugada aberto. O sótão continua lá em cima, e a escada continua com largura para uma pessoa.
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