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ED 011

Os 91 Minutos no Fundo da Piscina

Em 5 de agosto de 1926, Houdini se deixa lacrar num caixão de ferro no fundo da piscina do Hotel Shelton, em Nova York.

Uma tampa de caixão de ferro galvanizado com as juntas soldadas, apoiada no ladrilho molhado à beira de uma piscina, com um cronômetro de bolso aberto ao lado.

O ferro soldado e o cronômetro na borda da piscina

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Na tarde de 21 de julho de 1926, um homem anunciado como fakir egípcio deitou-se dentro de uma caixa de metal na piscina do Hotel Dalton, em Nova York. A tampa desceu sobre ele, os parafusos foram apertados, e a caixa ficou submersa por uma hora.

O nome de cartaz era Rahman Bey. Ele atravessava a própria bochecha com uma agulha, dizia parar o pulso quando queria e tinha acabado de cumprir temporada no Selwyn Theatre, na Broadway.

Quem traduziu o feito para os jornais foi Hereward Carrington, pesquisador de fenômenos psíquicos e empresário do número. A explicação oficial era transe cataléptico, um estado em que o corpo suspenderia a necessidade de ar.

A explicação tinha endereço certo. Carrington vinha de uma briga pública com Houdini dentro do comitê da Scientific American que investigou a médium Margery, em Boston, em 1924.

Houdini tinha passado o ano inteiro naquela guerra. Em fevereiro e em maio de 1926 ele depôs diante de um comitê da Câmara, em Washington, a favor de um projeto que proibia a adivinhação paga no Distrito de Columbia.

O argumento dele era sempre o mesmo. Não existe poder sobrenatural no palco, existe treino, preparo físico e uma plateia disposta a acreditar antes de conferir.

A demonstração do fakir não era só número de teatro. Ela sustentava a tese de que o corpo humano guarda uma reserva sobrenatural, e a tese alimentava o comércio de médiuns que ele vinha desmontando cidade por cidade.

Uma hora dentro de uma caixa lacrada era, para ele, problema de volume de ar e de respiração, nunca de espírito. E problema de volume de ar se resolve com médico, testemunha e cronômetro.

Aos 52 anos, ele avisou pela imprensa que faria o mesmo sem transe nenhum e que ficaria mais tempo lá dentro. Marcou o teste para uma quinta-feira de agosto e convidou repórteres, um médico e o próprio Carrington.

A primeira página de hoje começa no sub-solo de um hotel da Lexington Avenue, entre um maçarico de solda e a borda de uma piscina de 23 metros.

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I  A Primeira Página de Hoje

O telefone dentro da caixa de ferro

O Hotel Shelton tinha aberto as portas em janeiro de 1924, na Lexington Avenue com a rua 49. Eram 34 andares e 118 metros de altura, e a propaganda da casa o anunciava como o hotel mais alto do mundo.

O prédio foi levantado como hotel de solteiros, com 1.200 quartos pequenos e serviço de clube. No sub-solo ficava a piscina de 23 metros, aberta em novembro de 1924, o item que vinha primeiro em qualquer anúncio.

Pouco depois do meio-dia de 5 de agosto de 1926, a borda dessa piscina estava tomada por repórteres. No chão, ao lado da água, havia um caixão de ferro galvanizado de mais de 300 quilos.

O médico W. J. McConnell, que vinha do Bureau of Mines, mediu pulso, respiração e pressão antes de qualquer coisa. O assistente Jim Collins ficou responsável pelo telefone que desceria junto com a caixa.

Dentro do caixão havia 563 litros de ar, uma campainha de alarme e o aparelho de telefone. As vigias foram parafusadas e as juntas da tampa foram soldadas na frente de todo mundo.

A preparação tinha começado semanas antes, nos fundos da Boyertown Burial Casket Company, na Pensilvânia. Ele treinou dentro de caixões menores, perdeu quase seis quilos e chegou a uma hora e dez minutos no primeiro ensaio.

A caixa desceu ao fundo da piscina. Collins passava o tempo pelo telefone, e a instrução combinada era curta: nada de respiração funda, nada de movimento.

Aos trinta minutos o teste quase terminou. Um assistente que balançava a caixa para circular o ar escorregou, o caixão subiu de uma vez e quase virou, e entrou água por uma fresta.

Ele chegou à superfície furioso e ofegante, com medo de um vazamento maior. Mandou descer de novo.

A temperatura lá dentro subiu para 37,7 graus. A roupa encharcou, o gosto na boca virou metálico, e a irritação foi ficando difícil de controlar.

Aos cinquenta minutos ele estava arfando e não sabia se aguentaria. Aos oitenta e oito, começou a ver luzes amarelas e precisou se obrigar a não dormir.

No minuto noventa ele mandou içar. A tampa foi aberta aos 91 minutos, e ele saiu branco, encharcado de suor e sem conseguir ficar de pé sozinho.

Um homem de 52 anos passou 91 minutos dentro de 563 litros de ar, e a única técnica empregada foi deitar, ficar imóvel e respirar raso.

Corre um boato de que existe um truque na coisa. Dou minha palavra de honra que não há nada nela além de deitar e ficar quieto.

Harry Houdini, carta a um amigo, agosto de 1926

A marca do fakir era de uma hora. A diferença ficou registrada em 31 minutos, com médico, cronômetro e o empresário do rival olhando da borda.

Na mesma tarde ele foi até a sede da YMCA, jogou uma partida de handebol e ainda correu tiros curtos na pista.

 
 

II  O Que Aconteceu Depois

O caixão de bronze de Boyertown

A primeira página do dia seguinte deu o placar em minutos: 91 contra 60. O que ela não podia dar é que aquele caixão de ferro viraria carta técnica para engenheiro de mina, e que em 87 dias o nome dele voltaria à capa por outro motivo.

Ainda com as sensações frescas, ele escreveu no mesmo dia uma carta longa para McConnell. Descreveu o gosto metálico, a sonolência, as luzes amarelas e o instante em que a vontade de respirar fundo apertou.

A recomendação prática cabia em duas linhas. Quem ficar preso com pouco ar não deve respirar fundo nem gastar energia com movimento inútil.

O destinatário não era um curioso. O Bureau of Mines tinha sido criado em 1910, depois de uma década de explosões em minas de carvão, e estudava justamente quanto tempo um homem soterrado aguenta num espaço fechado.

A carta ficou nos arquivos como registro raro. Um artista de palco entregou a um órgão federal um relato cronometrado do próprio corpo consumindo o ar de uma caixa selada.

Do outro lado, a versão sobrenatural começou a desmontar sozinha. O Brooklyn Eagle contratou um egípcio para entrevistar Rahman Bey, e o fakir não entendeu o árabe que ouviu.

O homem do transe cataléptico era italiano. O número seguiu em cartaz, agora sem a moldura de mistério oriental que o vendia.

Bey ainda tentou a resposta dentro de um caixão selado no rio Hudson. Não completou a hora e precisou ser içado antes do prazo.

Houdini planejava levar a caixa para o palco. A temporada de 1926 e 1927 traria um número chamado Enterrado Vivo, com um caixão de bronze encomendado à mesma Boyertown onde ele tinha treinado.

O número nunca estreou. Em 22 de outubro de 1926, no camarim do Princess Theatre, em Montreal, um estudante de McGill chamado J. Gordon Whitehead pediu para testar a resistência do abdômen dele e acertou vários golpes antes que ele firmasse o corpo.

Dois dias depois ele subiu ao palco do Garrick Theatre, em Detroit, com 40 graus de febre. Terminou a apresentação e só então aceitou ir para o hospital.

O apêndice já tinha rompido. O diagnóstico foi peritonite difusa, e o quadro se fechou em 31 de outubro de 1926, à uma e vinte e seis da tarde, no Grace Hospital, aos 52 anos.

O caixão de bronze encomendado para o número de palco serviu para trazer o corpo de volta a Nova York. O enterro em 4 de novembro, no cemitério Machpelah, no Queens, reuniu cerca de duas mil pessoas.

Bess Houdini cumpriu por dez anos o combinado entre os dois. Todo 31 de outubro ela conduzia uma sessão à espera do código que só o marido conhecia.

Houdini não veio. Minha última esperança acabou. Está encerrado. Boa noite, Harry.

Bess Houdini, última sessão anual, terraço do Hotel Knickerbocker, Hollywood, 31 de outubro de 1936

Ela apagou a vela acesa ao lado do retrato e encerrou a série. O que sobrou dos 91 minutos ficou todo do lado material: um relatório de respiração, um rival sem lenda e um caixão de bronze que chegou de Boyertown para um número que ninguém viu.

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III  O Anúncio da Página 3

A foto que nenhum jornal tinha

A página: Nova York de 1926 vivia uma guerra de tabloides. O Daily News tinha aberto em 1919, o Daily Mirror em 1924 e o Evening Graphic em setembro de 1924, os três brigando pelo leitor de banca com foto grande e manchete curta.

O anúncio: o Shelton era, ele próprio, uma peça publicitária. Hotel mais alto do mundo, 1.200 quartos, quadra de squash, solário, enfermaria e a piscina do sub-solo, tudo listado em anúncio de página inteira.

O tabloide: o Evening Graphic, de Bernarr Macfadden, resolvia a falta de imagem fabricando a imagem. O diretor de arte Harry Grogin montava o composograph, uma colagem em que o rosto de um famoso era colado sobre funcionários do jornal posando em estúdio.

A técnica dava resultado de circulação. A montagem do julgamento Rhinelander teria vendido cem mil exemplares a mais, e o jornal ainda montaria cenas de Rudolph Valentino, internado em Nova York naquele mesmo agosto.

O teste do Shelton caiu no meio da disputa com um defeito grave de pauta: não havia o que fotografar. Um caixão soldado no fundo de uma piscina rende, no máximo, homens de terno olhando para a água.

A prova inteira era feita de testemunho e de relógio. Um médico com prontuário, um assistente anotando os minutos pelo telefone e um adversário declarado assistindo da borda.

O New York American saiu em 6 de agosto de 1926 com o placar na manchete, Houdini vence o fakir em permanência sob a água. O recorte está guardado hoje na Biblioteca do Congresso.

O hotel entendeu o valor do que tinha acontecido no sub-solo. O caixão de ferro ficou exposto à beira da piscina por cerca de vinte anos, com uma placa ao lado.

A placa dizia que era o caixão no qual Houdini tinha sido enterrado vivo. Ele nunca foi enterrado ali dentro, e o corpo foi sepultado no caixão de bronze encomendado para o número de palco.

O ferro ficou vinte anos à beira da piscina com uma legenda errada, e a legenda errada rendeu mais diária ao hotel do que a versão correta renderia.

"O que sobra de 91 minutos dentro de uma caixa lacrada, a prova que o homem quis deixar ou a placa que o hotel escreveu depois?"

 
 
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