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Os dezoito dias de Frank Butler
Em 3 de novembro de 1926, Greenville, Ohio, se despede da atiradora de 66 anos, e o marido, antigo rival de torneio, a segue em dezoito dias.
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Espingarda e alvos de vidro, Ohio, 1926
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A família de Phoebe Ann Mosey seguia a doutrina quacre, que proíbe pegar em arma, e o recenseamento federal de 1870 registra a menina nessa casa, no condado de Darke, em Ohio. Cinco anos depois, num torneio pago em Cincinnati, a mesma menina derrubou o atirador profissional Frank Butler por um alvo de diferença. Os dois registros estão documentados na biografia Annie Oakley, escrita pela historiadora Shirl Kasper e publicada em 1992.
O nome Annie Oakley veio depois, tirado de um bairro de Cincinnati e adotado como nome de palco. Antes dele havia fome. O pai não resistiu a uma pneumonia quando ela tinha seis anos, a menina passou por um asilo de órfãos do condado e por uma família que a tratava a pancada, e voltou para casa caçando codorna com espingarda de cano único. A caça abatida ia de trem para os hotéis de Cincinnati, e o dinheiro quitou a hipoteca da fazenda da mãe antes de ela completar vinte anos.
Butler perdeu a bolsa do torneio e ganhou uma sócia. Casaram-se em 1876, montaram número de tiro a dois e, em 1885, entraram no Buffalo Bill's Wild West, o espetáculo itinerante de William Frederick Cody. Sitting Bull, o chefe hunkpapa que também viajava com a companhia, a batizou de Watanya Cicilla, Pequena Atiradora Certeira. Butler largou a própria carreira de palco e virou assistente dela: era ele quem segurava a carta de baralho e a moeda que a bala furava.
A carreira rendeu plateias de Estado. Em 1887 ela atirou diante da rainha Vitória, no jubileu de ouro em Londres, e em Berlim, em 1890, apagou a brasa de um cigarro que o kaiser Guilherme II segurava na boca, episódio reproduzido na biografia de Shirl Kasper. Em 1901 um choque de trens na Carolina do Norte a deixou meses em convalescença, e ela voltou a competir com a pontaria intacta.
Cinquenta anos de estrada depois, o casal voltou para Ohio. A primeira página de hoje reconstrói as três semanas de novembro de 1926 em Greenville e em Ferndale, e o que os registros de cartório guardaram sobre cada um deles.
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I A Primeira Página de Hoje
Dezoito dias entre duas despedidas
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Annie Oakley faleceu em 3 de novembro de 1926, em Greenville, Ohio, aos 66 anos, de anemia perniciosa, doença do sangue que naquele momento ainda não tinha tratamento confiável: a terapia com fígado cru, apresentada pelos médicos George Minot e William Murphy em 1926 e premiada com o Nobel de Medicina em 1934, chegou tarde para ela. O atestado local a identifica pelo nome de casada, Annie Butler.
Os meses finais tiveram endereço fixo, raridade na vida dela. Depois de 1922, quando um acidente de automóvel na Flórida a obrigou a usar tala de aço na perna direita, o casal se revezava entre temporadas na Carolina do Norte e a casa de parentes em Darke County. No começo de 1926 os dois voltaram para Ohio e ficaram.
Ela usou aquele intervalo para desmontar a própria vitrine. Distribuiu espingardas, medalhas e lembranças de palco entre parentes, amigos e instituições de caridade, e mandou derreter parte dos troféus de ouro para converter o metal em doação, conforme a biografia de Shirl Kasper. O testamento que assinou naquele ano dividiu o restante entre sobrinhos e obras assistenciais de Darke County.
Frank Butler estava em Michigan, hospedado com parentes, quando a notícia chegou de Ohio. Ele já vinha debilitado e parou de se alimentar. Faleceu em 21 de novembro de 1926, em Ferndale, no condado de Oakland, dezoito dias depois dela. Os dois registros de óbito ficaram a menos de três semanas de distância, e nenhum dos dois documentos menciona a causa do outro. |
A frase que a imprensa americana mais reproduziu dela, em vida, não falava de troféu nem de palco.
| | “Eu gostaria de ver cada mulher manejando uma arma com a mesma naturalidade com que segura um bebê.” Annie Oakley, declaração à imprensa americana reproduzida em Annie Oakley, de Shirl Kasper, 1992 |
O corpo dela foi cremado em Cincinnati, prática incomum no Meio-Oeste rural daquela década, e a urna ficou com a família até o sepultamento do marido. As cinzas foram enterradas ao lado dele no cemitério de Brock, no condado de Darke, ainda em novembro.
A ficha do caso:
| Nome de registro: Phoebe Ann Mosey, nascida em 13 de agosto de 1860, no condado de Darke, Ohio | | Data e lugar da despedida dela: 3 de novembro de 1926, em Greenville, Ohio | | Idade: 66 anos | | Causa registrada: anemia perniciosa, doença do sangue sem tratamento confiável até 1926 | | Marido: Frank E. Butler, atirador nascido na Irlanda, casado com ela desde 1876 | | Data e lugar da despedida dele: 21 de novembro de 1926, em Ferndale, condado de Oakland, Michigan | | Intervalo entre as duas: dezoito dias | | Sepultamento: cemitério de Brock, condado de Darke, Ohio, ainda em novembro de 1926 |
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A companhia que os projetou já tinha encerrado. O Buffalo Bill's Wild West faliu em 1913, e Cody faleceu em 1917. Quando os obituários saíram, ela já não era artista de arena: dava aula de pontaria para mulheres em clubes e hotéis.
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II O Que Aconteceu Depois
O inventário, o palco e a versão que Hollywood inventou
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O inventário de Annie Oakley foi aberto em Darke County em novembro de 1926 e fechou pequeno para quem enchera arenas em dois continentes: casa, terreno, aplicações modestas e objetos de palco. O grosso do patrimônio já tinha saído em vida, e o testamento repartiu o resto entre parentes e instituições da região.
O que cresceu depois foi a figura pública. Em 1935 a RKO lançou o filme Annie Oakley, dirigido por George Stevens, com Barbara Stanwyck no papel. Em 1946 a Broadway estreou o musical Annie Get Your Gun, Annie Pega em Armas, com música e letra de Irving Berlin e Ethel Merman no palco, e a montagem passou de mil apresentações antes de virar filme da MGM em 1950. Entre 1954 e 1957 uma série de televisão com Gail Davis levou o nome dela para a casa das famílias americanas.
A versão que ficou popular inverteu o fato de origem. No musical de Irving Berlin, a atiradora erra de propósito para não humilhar o pretendente e conquistar o casamento. No torneio de Cincinnati, ela venceu Frank Butler por um alvo, ele pagou a aposta, e foi a derrota dele que abriu o namoro. A biografia de Shirl Kasper e o acervo do Garst Museum, em Greenville, sustentam a versão do resultado real. |
A cronologia do caso:
| 1860: Phoebe Ann Mosey nasce no condado de Darke, em Ohio | | 1875: vence Frank Butler num torneio de tiro pago em Cincinnati | | 1876: casa-se com Butler, que abandona a carreira solo e vira assistente dela | | 1885: o casal entra no Buffalo Bill's Wild West | | 1901: um choque de trens na Carolina do Norte interrompe a temporada | | 1922: um acidente de automóvel na Flórida a obriga a usar tala de aço na perna | | novembro de 1926: as duas despedidas, dezoito dias uma da outra, e o sepultamento no cemitério de Brock | | 1946: o musical de Irving Berlin fixa na cultura popular uma versão invertida do torneio |
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Três pontos do registro seguem em aberto, e convém dizer quais. A grafia do sobrenome de nascimento varia entre Mosey, Moses e Mozee nos documentos de família e nos censos, e os biógrafos não chegaram a uma forma única. A quantidade de mulheres que ela afirmou ter ensinado a atirar, cerca de quinze mil, saiu de declaração própria e não tem lista de alunas que a confirme. E o local exato onde as cinzas repousam dentro da sepultura de Brock depende de relato de família, porque a documentação do cemitério registra o sepultamento sem descer a esse detalhe.
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