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ED 010

Os Dois Disparos no Campidoglio

Em 7 de abril de 1926, na saída de um congresso de cirurgia em Roma, uma irlandesa de 49 anos encosta um revólver no rosto de Mussolini.

Um revólver antigo de tambor pousado sobre um xale preto dobrado, com um cartucho intacto de pé ao lado, sobre degraus de pedra clara.

O revólver de 1892 e o cartucho que falhou

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Na tarde de 4 de novembro de 1925, a polícia italiana abriu a porta de um quarto do Hotel Dragoni, em Roma. A janela dava para o Palácio Chigi, e em cima da cama havia um fuzil com luneta, montado e carregado.

O hóspede era Tito Zaniboni, deputado socialista e oficial condecorado na guerra. Ele esperava a sacada se abrir no aniversário da vitória de 1918, e um infiltrado já tinha entregado o plano semanas antes.

A resposta veio em dias. O partido de Zaniboni foi dissolvido, o jornal dele parou de circular, e antes do fim daquele mês uma lei desmontou as sociedades secretas do país inteiro.

O cálculo ficou registrado ali. Tentativa contra o chefe do governo virava lei nova, e a lei nova nunca tratava só de quem tinha tentado. Tratava de quem escrevia, de quem se reunia e de quem votava contra.

A imprensa já tinha dono. Uma lei de dezembro de 1925 exigia que cada jornal tivesse um diretor responsável aprovado pelo prefeito, e o prefeito respondia ao Ministério do Interior, ocupado pelo próprio chefe do governo.

A oposição parlamentar também tinha saído de cena por conta própria. Os deputados do Aventino deixaram a Câmara em junho de 1924, em protesto pelo caso Matteotti, e dois anos depois continuavam fora dela sem nenhum efeito prático.

Em abril de 1926 Roma estava cheia de estrangeiros. O Congresso Internacional de Cirurgia reunia médicos de dezenas de países no alto do Campidoglio, e o chefe do governo abriu os trabalhos numa quarta-feira de manhã.

A praça no alto da colina servia bem à ocasião. Fechada pela escadaria de Michelangelo, com três palácios em volta, ela filtrava quem subia e enquadrava quem descia.

A primeira página de hoje começa nessa escadaria, entre o fim de um discurso e a porta de um automóvel já aberta.

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I  A Primeira Página de Hoje

A mulher de preto na primeira fila

O congresso tinha aberto no Palácio dos Conservadores, no alto do Campidoglio. Cirurgiões de dezenas de países ocupavam o salão, e o chefe do governo discursou de manhã sobre o lugar da medicina italiana no mundo.

Pouco antes das onze ele desceu para a praça. A comitiva abria caminho até o automóvel, um grupo de estudantes cantava a plenos pulmões, e ele virou o rosto para o lado de onde vinha o canto.

Na primeira fila estava uma mulher magra, de vestido preto e cabelo grisalho preso. Ela tinha 49 anos, chamava-se Violet Gibson, era irlandesa e morava em Roma havia meses, hospedada num convento.

Dentro de um xale preto dobrado sobre a mão ela levava um revólver francês, modelo 1892, com o tambor carregado. Ninguém na praça reparou no volume do tecido.

A distância era de um braço. Ela levantou a arma na altura do rosto dele e apertou o gatilho.

O movimento de cabeça mudou o resto do século. A bala passou pelas narinas, rasgou a pele dos dois lados do nariz e saiu sem tocar em osso.

Ela apertou o gatilho outra vez. O cão bateu, o cartucho não pegou fogo, e o segundo tiro ficou preso dentro da arma.

A praça virou em cima dela. Mãos puxaram o cabelo e rasgaram a roupa, e carabineiros precisaram abrir caminho com o próprio corpo para tirá-la dali inteira.

Levaram-na para a delegacia e depois para a prisão feminina das Mantellate. Ela não negou nada, não deu nome de cúmplice e não pediu advogado.

Aos investigadores, a explicação não mudou de uma sessão para a outra. Ela repetia um motivo religioso, sem programa político por trás, e resumia tudo em quatro palavras.

Para glorificar a Deus.

O ferimento foi tratado em minutos. Os melhores cirurgiões do mundo estavam a poucos metros dali, reunidos no salão do congresso, e o caso pedia apenas gaze e esparadrapo.

Ele não cancelou a agenda do dia. À tarde apareceu em público com o curativo branco atravessado no meio do rosto, e o curativo entrou em todas as fotografias da semana.

A cidade respondeu à noite. Grupos percorreram as ruas, houve manifestação diante do Palácio Chigi, e telegramas de solidariedade chegaram de embaixadas e de governos estrangeiros.

A imprensa do dia seguinte tratou o episódio como obra de uma estrangeira desequilibrada. A idade dela saiu errada em algumas edições, e a palavra usada para explicar tudo foi loucura.

Uma mulher de 49 anos encostou um revólver no rosto do chefe do governo italiano, e o que separou o país de outra história foi um giro de cabeça de meio segundo.

Os jornais estrangeiros previram endurecimento imediato. Nenhum deles arriscou dizer em quantos meses, nem em quantas leis.

 
 

II  O Que Aconteceu Depois

A gaveta de cartas em Northampton

A primeira página daqueles dias registrou um susto, um curativo e uma estrangeira presa. O que ela não podia registrar é que o tiro perdido viraria argumento de lei em novembro, e que a mulher da praça passaria trinta anos num hospital inglês escrevendo cartas que ninguém postou.

O governo decidiu não levar o caso a julgamento. Peritos declararam Violet Gibson irresponsável, o processo foi encerrado e ela deixou a Itália sob custódia, expulsa por decisão administrativa.

A saída convinha aos dois lados. Um julgamento público daria à ré um palco e um advogado, e daria à imprensa estrangeira semanas de audiência para contar o que quisesse do regime.

Ela desembarcou na Inglaterra e entrou no hospital psiquiátrico St Andrew's, em Northampton. A internação foi pedida pela própria família.

O pai dela tinha sido Lord Chancellor da Irlanda, e o irmão herdou o título de barão Ashbourne. A família preferiu a internação a uma Gibson em manchete todo mês.

Ela escreveu durante trinta anos. Cartas para o papa, para a família, para Winston Churchill e para a princesa Elizabeth, pedindo revisão do caso e autorização para sair.

As cartas não saíram do hospital. A equipe retinha a correspondência, e os envelopes terminaram no prontuário em vez do correio.

O registro dela em St Andrew's se encerra em 2 de maio de 1956, aos 79 anos. O enterro no cemitério de Kingsthorpe reuniu funcionários do hospital, e nenhum parente atravessou o portão.

Na Itália a conta correu mais rápido. Em 11 de setembro de 1926 uma bomba foi atirada contra o carro do chefe do governo na Porta Pia, e em 31 de outubro um rapaz de 15 anos disparou em Bolonha e foi linchado ali mesmo.

As leis vieram em novembro. Um decreto de 6 de novembro dissolveu os partidos de oposição, fechou os jornais deles e criou o confinamento por decisão de polícia, sem processo.

Em 25 de novembro veio a lei de defesa do Estado. Ela restaurou a pena capital para atentado contra o chefe do governo e criou um tribunal especial de juízes militares, sem recurso ordinário.

Antonio Gramsci foi preso em 8 de novembro, apesar da imunidade parlamentar. No dia seguinte a Câmara declarou extintos os mandatos dos deputados do Aventino.

O tribunal especial funcionou de fevereiro de 1927 a julho de 1943. Processou 5.633 pessoas, condenou 4.610, aplicou 42 sentenças capitais e distribuiu 27.732 anos de prisão.

O regime também ganhou fora de casa. Nove meses depois da manhã do Campidoglio, o chanceler do Tesouro britânico deu entrevista em Roma e falou do governo italiano em termos que a propaganda reproduziu por anos.

Se eu fosse italiano, tenho certeza de que estaria inteiramente ao seu lado, do começo ao fim, na luta triunfante contra os apetites e as paixões bestiais do leninismo.

Winston Churchill, declaração à imprensa em Roma, 1927

O nome de Violet Gibson sumiu das duas histórias. Não entrou na lista de mártires da oposição, porque o gesto foi tratado como delírio, e não entrou na galeria do regime, porque o regime preferiu o caso encerrado.

Ela voltou à página impressa muito depois. Em 2010 saiu The Woman Who Shot Mussolini, de Frances Stonor Saunders, e em 20 de outubro de 2022 uma placa foi fixada no número 12 de Merrion Square, em Dublin, a casa onde ela cresceu.

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III  O Anúncio da Página 3

O curativo que virou fotografia

A página: na imprensa italiana a terceira página tinha função definida. Nasceu no Giornale d'Italia em dezembro de 1901, quando o diretor mandou quatro repórteres cobrirem a estreia de uma peça de D'Annunzio, e virou o espaço fixo de crítica, ensaio e crônica nos jornais do país.

O anúncio: ao lado dessa página corriam os classificados e os anúncios grandes. Em abril de 1925 a Fiat tinha lançado o modelo 509 junto com uma financeira própria, a SAVA, que vendia automóvel em prestações e colocou a classe média italiana atrás do volante.

O cinejornal: quatro dias antes daquela manhã, um decreto de 3 de abril de 1926 obrigou todas as salas de cinema do país a exibir os filmes do Istituto Luce antes da sessão. A imagem oficial passou a ter plateia garantida.

O curativo caiu nesse circuito no dia seguinte. O rosto com a gaze branca no meio saiu em fotografia de jornal, em cartão-postal e na tela do cinema, e ninguém no governo pediu discrição.

A ferida servia melhor exposta. Ela provava o inimigo, provava a sorte e provava o corpo intacto, tudo na mesma imagem, sem uma linha de texto.

Do outro lado, a imprensa que poderia contestar a versão oficial vinha sendo desmontada havia meses. O Corriere della Sera, o jornal de maior circulação da Itália, perdeu o diretor Luigi Albertini em novembro de 1925, empurrado para fora pelos próprios acionistas.

O último editorial dele saiu em 29 de novembro daquele ano. Depois disso o maior diário do país deixou de contrariar o governo, e a leitura de sempre continuou chegando na mesma banca, com o mesmo nome na capa.

Em novembro de 1926 os jornais de oposição que restavam foram fechados por decreto. O mercado de anúncio inteiro passou a se dividir entre títulos que não faziam pergunta.

A conta de quem lucrou com aquele instante inverte a ordem que a praça sugeria. A mulher que atirou perdeu a liberdade, a família e o nome, e passou trinta anos escrevendo para um correio que não saía do prédio.

O homem que levou o tiro ganhou fotografia, comoção internacional e, sete meses depois, as leis que ainda faltavam para fechar o país.

O curativo saiu do rosto em poucos dias. As leis assinadas em novembro ficaram até 1943, e a mulher que provocou o susto ficou até 1956 num quarto de Northampton.

"O que sobra de um tiro que erra, um susto na primeira página ou uma lei assinada em novembro?"

 
 
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No Campidoglio, depois que o primeiro tiro atingiu o rosto de Mussolini, o que impediu o segundo disparo de Violet Gibson de sair?

AUm carabineiro segurou o braço dela antes do segundo gatilho
BO cão da arma bateu, mas o cartucho não pegou fogo
CO revólver só tinha uma bala carregada no tambor
DA multidão a derrubou no chão antes do segundo disparo

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