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O congresso tinha aberto no Palácio dos Conservadores, no alto do Campidoglio. Cirurgiões de dezenas de países ocupavam o salão, e o chefe do governo discursou de manhã sobre o lugar da medicina italiana no mundo.
Pouco antes das onze ele desceu para a praça. A comitiva abria caminho até o automóvel, um grupo de estudantes cantava a plenos pulmões, e ele virou o rosto para o lado de onde vinha o canto.
Na primeira fila estava uma mulher magra, de vestido preto e cabelo grisalho preso. Ela tinha 49 anos, chamava-se Violet Gibson, era irlandesa e morava em Roma havia meses, hospedada num convento.
Dentro de um xale preto dobrado sobre a mão ela levava um revólver francês, modelo 1892, com o tambor carregado. Ninguém na praça reparou no volume do tecido.
A distância era de um braço. Ela levantou a arma na altura do rosto dele e apertou o gatilho.
O movimento de cabeça mudou o resto do século. A bala passou pelas narinas, rasgou a pele dos dois lados do nariz e saiu sem tocar em osso.
Ela apertou o gatilho outra vez. O cão bateu, o cartucho não pegou fogo, e o segundo tiro ficou preso dentro da arma.
A praça virou em cima dela. Mãos puxaram o cabelo e rasgaram a roupa, e carabineiros precisaram abrir caminho com o próprio corpo para tirá-la dali inteira.
Levaram-na para a delegacia e depois para a prisão feminina das Mantellate. Ela não negou nada, não deu nome de cúmplice e não pediu advogado.
Aos investigadores, a explicação não mudou de uma sessão para a outra. Ela repetia um motivo religioso, sem programa político por trás, e resumia tudo em quatro palavras.
O ferimento foi tratado em minutos. Os melhores cirurgiões do mundo estavam a poucos metros dali, reunidos no salão do congresso, e o caso pedia apenas gaze e esparadrapo.
Ele não cancelou a agenda do dia. À tarde apareceu em público com o curativo branco atravessado no meio do rosto, e o curativo entrou em todas as fotografias da semana.
A cidade respondeu à noite. Grupos percorreram as ruas, houve manifestação diante do Palácio Chigi, e telegramas de solidariedade chegaram de embaixadas e de governos estrangeiros.
A imprensa do dia seguinte tratou o episódio como obra de uma estrangeira desequilibrada. A idade dela saiu errada em algumas edições, e a palavra usada para explicar tudo foi loucura.
Uma mulher de 49 anos encostou um revólver no rosto do chefe do governo italiano, e o que separou o país de outra história foi um giro de cabeça de meio segundo.
Os jornais estrangeiros previram endurecimento imediato. Nenhum deles arriscou dizer em quantos meses, nem em quantas leis.
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