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ED 005

Os Nove Dias sem Jornal na Grã-Bretanha

De 4 a 12 de maio de 1926, a Fleet Street sai de circulação, o governo imprime o próprio diário e o país passa a saber de si pelo rádio.

Uma primeira página de jornal de 1926 aberta sobre madeira escura, com um receptor de rádio de válvula e tipos móveis de chumbo ao lado.

A primeira página de 6 de maio de 1926

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Na noite de 2 de maio de 1926, os compositores do Daily Mail em Londres leram o editorial que teriam de montar na chapa e cruzaram os braços. O texto se chamava "For King and Country", pelo rei e pela pátria, e classificava a greve anunciada como movimento revolucionário.

A edição londrina não saiu naquela madrugada. A recusa chegou a Downing Street antes do amanhecer, e o gabinete de Stanley Baldwin encerrou ali a negociação com o Congresso dos Sindicatos, o TUC.

A briga tinha nascido embaixo da terra. Em março, a Comissão Samuel recomendou o fim do subsídio do governo às minas de carvão, e os donos responderam com jornada maior e salário menor. Em 1º de maio os portões das minas amanheceram trancados.

O governo já tinha comprado tempo uma vez. Em 31 de julho de 1925, numa sexta-feira que os sindicatos batizaram de Sexta Vermelha, Baldwin bancou um subsídio de nove meses para o salário dos mineiros. O prazo venceu em 30 de abril.

A palavra de ordem dos mineiros cabia numa linha: nem um centavo a menos no salário, nem um minuto a mais na jornada. O TUC chamou a greve de solidariedade para a meia-noite de 3 de maio.

Saíram os transportes, as docas, a siderurgia, a construção, o gás e a eletricidade, algo entre um milhão e meio e um milhão e setecentos mil trabalhadores. Saíram também as gráficas.

Fleet Street, a rua onde ficava quase todo diário nacional, ficou sem quem operasse linotipo e rotativa. Na manhã de 4 de maio, um país acostumado a receber jornal na porta antes do café acordou sem ele.

Restaram dois caminhos para quem quisesse saber o que estava acontecendo, e nenhum passava por uma redação independente. Um era impresso e vinha do Estado. O outro era falado e vinha de uma companhia privada com menos de quatro anos de idade.

A primeira página de hoje é o terceiro dia dessa contagem, com as duas máquinas já em funcionamento.

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I  A Primeira Página de Hoje

O diário do governo na Tudor Street

A primeira página daquela manhã não saiu de uma redação. Saiu de uma tipografia requisitada pelo Tesouro britânico, com o chanceler do Erário sentado à mesa de fechamento.

"THE GENERAL STRIKE IS A CHALLENGE TO PARLIAMENT AND IS THE ROAD TO ANARCHY AND RUIN", The British Gazette, Londres, 6 de maio de 1926, primeira página, em declaração assinada pelo primeiro-ministro Stanley Baldwin.

Em português: a greve geral é um desafio ao Parlamento e é o caminho para a anarquia e a ruína.

O British Gazette era o diário do governo. O primeiro número saiu em 5 de maio, nas rotativas do Morning Post, na Tudor Street, com Winston Churchill no comando da edição.

Churchill requisitou papel de imprensa dos jornais parados e recrutou voluntários para rodar as máquinas. Foram oito números entre 5 e 13 de maio.

A tiragem do primeiro dia foi de 232 mil exemplares. A do último chegou a 2.209.000, marca que nenhum diário britânico alcançava naquela semana.

O TUC respondeu com o próprio jornal. O British Worker estreou também em 5 de maio, impresso na oficina do Daily Herald, em Long Acre, e vendido por um pêni, o mesmo preço do jornal do governo.

O governo controlava o papel, e o papel virou arma. A cota do Worker foi cortada, o número de páginas encolheu e a tiragem parou perto de 700 mil exemplares, com edições em Manchester, Glasgow, Cardiff e Newcastle.

Fleet Street tentou manter alguma coisa de pé. O Times conseguiu rodar uma edição reduzida com pessoal voluntário, em fração da tiragem de um dia comum, e boa parte dos diários nacionais simplesmente não circulou.

O que sobrou, para o país inteiro, foi o rádio.

A British Broadcasting Company, ainda empresa privada dirigida por John Reith, tinha acordo que a proibia de ler notícia antes das sete da noite, para não atrapalhar a venda dos vespertinos. A regra caiu na primeira manhã da greve.

Passaram a sair cinco boletins por dia, às dez, à uma, às quatro, às sete e às nove e meia. Havia cerca de dois milhões de licenças de recepção, e cada aparelho servia uma casa inteira.

Em 8 de maio, Baldwin falou ao microfone da sala de estar de Reith, em Barton Street. Disse que era um homem de paz e que não entregaria a segurança da constituição britânica.

Nem todo mundo teve o mesmo direito de fala. O arcebispo da Cantuária, Randall Davidson, preparou um apelo por conciliação e não conseguiu autorização para lê-lo. Ramsay MacDonald também ficou de fora.

Churchill queria mais. Propôs ao gabinete requisitar a emissora, como tinha feito com o papel, e Baldwin recusou.

Em 7 de julho de 1926, já com a greve encerrada, Churchill resumiu na Câmara dos Comuns o jornal que tinha editado.

Recuso-me terminantemente a ser imparcial entre o corpo de bombeiros e o incêndio.

Na manhã de 12 de maio, uma delegação do TUC entrou em Downing Street e encerrou a greve sem nenhuma garantia escrita sobre o salário dos mineiros. Reith anunciou o fim ao microfone e, no lugar de comentário, leu os versos de William Blake que a Inglaterra canta como Jerusalém.

 
 

II  O Que Aconteceu Depois

O microfone que virou corporação

A primeira página daqueles dias trouxe a greve, o decreto de emergência e o boletim de rádio. O que ela não podia trazer é que a companhia privada que leu aqueles boletins sairia da crise transformada em instituição do Estado, e que os sindicatos perderiam por lei o direito de repetir a manobra.

Os mineiros continuaram fora depois de 12 de maio. Ficaram parados o verão inteiro e boa parte do outono, sustentados por auxílio de sindicato, cozinha comunitária e doação estrangeira.

Voltaram ao trabalho entre novembro e dezembro de 1926, distrito por distrito, com jornada maior e salário menor do que o recusado em abril. A lei do carvão daquele ano já tinha liberado o turno de oito horas.

O governo tratou de fechar a porta por escrito. A Lei de Conflitos Trabalhistas e Sindicatos recebeu sanção real em julho de 1927 e tornou ilegal a greve geral e a greve de solidariedade.

A mesma lei mexeu no dinheiro. A contribuição sindical para fundo político passou a exigir adesão expressa de cada trabalhador, e a arrecadação do Partido Trabalhista caiu perto de um quarto.

Sindicato de funcionário público ficou proibido de se filiar ao TUC. A lei só seria revogada em 1946, e o TUC nunca mais convocou uma greve geral.

A outra herança daqueles nove dias estava no ar.

Em março de 1926, semanas antes da paralisação, a Comissão Crawford tinha entregue um relatório recomendando que a radiodifusão britânica deixasse de ser empresa de acionistas e virasse corporação pública.

O relatório estava na fila do gabinete, e os boletins empurraram a fila. Em nove dias a emissora tinha sido o único canal nacional em funcionamento, e os dois lados do Parlamento passaram a tratá-la como serviço, não como negócio.

A carta régia saiu naquele ano e entrou em vigor em 1º de janeiro de 1927. A British Broadcasting Company virou British Broadcasting Corporation, com mandato de dez anos, financiada pela licença de dez xelins cobrada pelo correio.

John Reith passou de diretor-gerente a diretor-geral e foi sagrado cavaleiro logo depois. Durante a greve ele tinha anotado o próprio raciocínio: se o governo agia pelo povo e a emissora existia para o povo, a emissora estava do lado do governo.

Fleet Street voltou às bancas em 13 de maio, com as rotativas rodando e os anúncios de volta ao lugar. O British Gazette encerrou no mesmo dia, e as máquinas do Morning Post voltaram ao dono.

O British Worker saiu de circulação poucos dias depois e virou peça de acervo sindical.

Churchill guardou os oito números. O jornal que ele fez com papel requisitado alcançou tiragem que nenhum diário privado da ilha tinha alcançado, e nunca mais voltou a ser impresso.

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III  O Anúncio da Página 3

O rádio que vendeu sem anunciar

O aparelho: um receptor de válvula de mesa saía por algo entre cinco e quinze libras, várias semanas de salário de operário, e o conjunto de cristal com fone saía por bem menos. Nos nove dias de paralisação, loja de rádio em Londres e nas cidades industriais girou estoque parado havia meses, e quem tinha resistido ao aparelho comprou o dele naquela semana.

A licença: a emissora não vendia anúncio. O dinheiro vinha da licença anual de dez xelins, cobrada pelo correio e dividida com o Tesouro. A maior semana de venda da indústria de rádio britânica aconteceu sem uma linha de espaço pago.

A regra das sete da noite: o acordo com as agências proibia a emissora de ler boletim antes das dezenove horas e a obrigava a usar texto comprado de Reuters, Press Association, Exchange Telegraph e Central News. Existia para proteger a venda de rua dos vespertinos, caiu na primeira manhã da greve e voltou depois, mais frouxa.

Tem também a página de anúncio que não existiu. O Times daquele tempo trazia classificados na primeira página, coluna de pedidos, encontros e ofertas que sustentava boa parte da receita, e a edição de emergência não teve espaço para nenhum deles.

Quem tinha comprado espaço para a semana de 4 a 12 de maio não teve onde aparecer. O contrato estava fechado, a arte estava pronta, e a página não foi impressa.

O British Gazette também não vendia anúncio. Era jornal de Estado, rodado em papel tirado de quem estava parado, e a associação dos proprietários de jornal reclamou por escrito do governo virar concorrente da indústria que tinha requisitado.

O acervo guarda os oito números do jornal do governo e os do jornal do sindicato lado a lado, e nenhum dos dois tem página comercial. Manchete, decreto e boletim, nada mais.

Vale reparar no que essas páginas não conseguiram vender. Faltou anúncio de trem, de leilão, de cinema e de loja de departamento, porque nenhuma dessas casas tinha como garantir que abriria no dia seguinte.

Do outro lado da conta estava a caixa de madeira com um alto-falante em cima. Ela não comprou espaço em lugar nenhum e virou o produto mais procurado dos nove dias, porque era o único móvel da casa que trazia a informação do dia.

O número de licenças fechou 1926 acima de dois milhões e seguiu subindo em toda a década seguinte.

A página comercial de maio de 1926 não chegou a ser impressa, e mesmo assim vendeu. O produto que ela deixou de anunciar entrou em milhões de salas de estar pela própria falta de papel.

"Quanto vale uma página de anúncio no dia em que a notícia encontra outro caminho até a sala de estar?"

 
 
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A232 mil exemplares
B700 mil exemplares
C2.209.000 exemplares
D1.700.000 exemplares

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