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Os Oito Dias de Rodolfo Valentino

Entre 15 e 23 de agosto, oito boletins otimistas saem do hospital Polyclinic, e a rua 50 fica tomada esperando o seguinte.

Uma primeira página de jornal de 1926 aberta sobre madeira escura, com um rolo de filme 35mm desenrolado e um chapéu de feltro escuro ao lado.

A primeira página de 24 de agosto de 1926

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Em julho de 1926, uma máquina de talco cor-de-rosa apareceu no banheiro masculino de um salão de baile de Chicago. Um jornalista do Chicago Tribune achou a máquina, escreveu um editorial sem assinatura e culpou um único ator pelo que chamou de afeminação do homem americano.

O texto perguntava por que ninguém tinha afogado Rodolfo Valentino discretamente anos antes. Ele respondeu por carta aberta, publicada nos jornais de Nova York, desafiando o autor anônimo pro boxe ou pra luta livre. Ninguém se apresentou.

No lugar do editorialista foi Frank O'Neil, cronista de boxe do New York Evening Journal. Os dois subiram ao terraço do Hotel Ambassador, com Jack Dempsey, campeão dos pesos pesados, no meio do ringue improvisado. Valentino derrubou o cronista, e a imprensa deu a vitória a ele.

A expressão do editorial pegou. Borla de pó cor-de-rosa virou piada de coluna e de esquina, repetida por semanas em cidades onde ninguém tinha lido o texto original.

Cinco anos antes ele não era ninguém. Nascido em Castellaneta, no sul da Itália, em 1895, desembarcou em Nova York aos 18 anos e sobreviveu dançando tango por alguns centavos a música em salões da cidade.

Em 1921 veio "Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse", adaptado por June Mathis, que brigou pra colocá-lo no papel. No mesmo ano saiu "O Sheik", e o nome do filme virou substantivo comum: rapaz de cabelo colado e olhar fixo era um sheik.

Em 1926 o cinema ainda não falava, e o rosto dele funcionava em qualquer idioma. As salas americanas vendiam algo perto de 50 milhões de ingressos por semana, num país de 117 milhões de habitantes.

Em julho de 1926 estreou "O Filho do Sheik", e ele veio a Nova York pra turnê de lançamento. Devia dinheiro, mantinha uma casa grande demais na Califórnia e tinha metade do lucro líquido do filme em contrato.

Aos 31 anos ele estava no ponto mais alto da carreira, com a agenda cheia até o fim do ano. A primeira página de hoje é a manhã seguinte ao último boletim assinado no hospital Polyclinic.

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I  A Primeira Página de Hoje

O último boletim do Polyclinic

A manchete de primeira página não abre pelo filme nem pelo cartaz. Abre pela multidão que continuava na calçada quando o boletim final foi assinado. Aqui estão os oito dias inteiros, do primeiro corte de bisturi ao último parágrafo impresso.

"VALENTINO DIES WHILE THRONG MOURNS OUTSIDE", The World, Nova York, 24 de agosto de 1926, primeira página de uma edição de 32 páginas, com a chamada "Famous Sheik of Films, Who Brought Movie World to Feet in Thirteen Years, Succumbs in Polyclinic Hospital at Age of 31".

Em português: Valentino se vai enquanto a multidão vela do lado de fora. E na chamada: o famoso sheik dos filmes, que pôs o mundo do cinema a seus pés em treze anos, sucumbe no hospital Polyclinic aos 31.

No domingo, 15 de agosto, ele passou mal no quarto do Hotel Ambassador. A dor abdominal começou de manhã, e no mesmo dia ele deu entrada no New York Polyclinic Hospital, na rua 50 Oeste.

A cirurgia foi na mesma tarde, conduzida pelo doutor Harold Meeker. Eram dois problemas numa operação só: uma úlcera gástrica perfurada e um apêndice inflamado.

A combinação é rara o bastante pra ter ganhado o nome dele na medicina. Síndrome de Valentino é a úlcera perfurada que se disfarça de apendicite, e o termo segue em uso em artigo de caso publicado hoje.

Nos dias seguintes o hospital passou a distribuir boletim à imprensa, e a calçada da rua 50 ficou tomada. Repórteres de plantão, fãs em pé e telefonemas suficientes pra ocupar a mesa telefônica do prédio.

Os boletins eram bons. Ele estava sentado, conversava, recebia visitas curtas e mandava recado pra fora.

Segundo o relato do empresário dele, a primeira pergunta ao médico depois da cirurgia foi se ele tinha se comportado como uma borla de pó cor-de-rosa ou como um homem.

O que os boletins não diziam é que a peritonite já estava instalada antes da cirurgia. Em 1926 não havia antibiótico, e a infecção corria sem nada pra segurá-la.

No dia 21 veio a pleurite no pulmão esquerdo, rápida, num corpo já sem reserva. O tom dos boletins mudou de um dia pro outro.

No dia 22 o quarto recebeu o padre. Na madrugada do dia 23 ele acordou lúcido por alguns minutos, falou com os médicos sobre planos, e entrou em coma logo depois.

Às 12h10 do dia 23 de agosto de 1926 saiu o último boletim, de uma linha só. Ele tinha 31 anos.

No dia seguinte a página inteira era dele, e não só em Nova York. O Springfield Daily Republican, de Massachusetts, abriu com manchete de três linhas em duas colunas: "Death of Sheik of Screen Received as Great Shock By Moving-Picture World", com a chamada "Flood Of Tributes Comes For Valentino As Man And Artist" e retrato na página 3.

Em português: a partida do sheik da tela recebida como grande choque pelo mundo do cinema, com enxurrada de tributos ao homem e ao artista.

 
 

II  O Que Aconteceu Depois

A fila que virou tumulto na Broadway

A página daquela manhã trouxe o boletim, a idade e os tributos. O que ela não podia trazer é que o velório do dia seguinte terminaria com a polícia montada abrindo caminho na Broadway.

O corpo foi levado pra Frank E. Campbell Funeral Church, na Broadway com a rua 66, uma casa funerária que já era conhecida por atender artistas.

A fila começou em 24 de agosto e não parou. Estima-se que 100 mil pessoas ocuparam as ruas em volta, e a espera pra passar pelo caixão durou o dia inteiro.

O tumulto veio junto. Vitrines quebradas, gente empurrada contra as grades, mais de cem policiais montados e a reserva da polícia de Nova York chamada pra conter a rua.

Dentro da capela, quatro homens de camisa preta faziam guarda ao caixão, apresentados como enviados de Benito Mussolini. Não eram: o agente de imprensa da funerária tinha contratado figurantes, e a farsa apareceu nos jornais dias depois.

Pola Negri, atriz polonesa que se apresentou como noiva dele, chegou da Califórnia e desmaiou sobre o caixão diante dos fotógrafos. Mandou uma coroa com o próprio nome escrito em flores.

Os jornais também registraram casos de leitoras que tiraram a própria vida naquela semana, cada um com nome e endereço impressos.

Em 30 de agosto a missa foi na igreja de St. Malachy's, na rua 49 Oeste, a capela dos artistas do distrito dos teatros. Mary Pickford, Douglas Fairbanks e Gloria Swanson estavam entre os presentes.

Depois o caixão atravessou o país de trem, com gente esperando nas estações do caminho, até uma segunda cerimônia na igreja do Bom Pastor, em Beverly Hills.

Ele não tinha jazigo. June Mathis, a roteirista que o tinha colocado em "Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse" cinco anos antes, cedeu uma cripta que havia comprado no Hollywood Memorial Park.

O arranjo era pra ser provisório. Mathis se foi no ano seguinte, aos 40 anos, e os dois continuam lado a lado na mesma parede até hoje.

A conta que ficou era ruim. O espólio devia cerca de 160 mil dólares, e em 13 de outubro de 1926 o empresário George Ullman assumiu como inventariante.

O que salvou a herança foram os dois filmes ainda em cartaz. Ele tinha metade do lucro líquido de "O Filho do Sheik" e de "A Águia", e a bilheteria do primeiro passou de 2 milhões de dólares.

A partir de 1927 uma mulher de preto passou a aparecer na cripta em 23 de agosto, com uma rosa vermelha na mão. A identidade dela nunca foi fechada, e a romaria anual continua acontecendo.

O que nasceu naquela semana não foi o luto de uma pessoa. Foi a descoberta de que a plateia de cinema chorava em multidão, e de que a multidão cabia numa primeira página.

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III  O Anúncio da Página 3

O disco gravado dez dias depois

O disco: dez dias depois, em 2 de setembro de 1926, Vernon Dalhart gravou "There's a New Star in Heaven To-night (Rudolph Valentino)". A canção saiu em Victor, Okeh e outros selos, cantada por vozes diferentes, e chegou às lojas antes de o caixão chegar à Califórnia.

A lata: a marca de preservativos Sheik, da Julius Schmid, vendia três unidades por lata e tinha pegado o nome do filme de 1921. Valentino nunca assinou nada pra ela, e a insinuação bastava: a fábrica dominou o mercado americano por décadas.

O cartaz: as salas voltaram a anunciar "O Filho do Sheik", lançado em 9 de julho de 1926, como a última chance de ver o ator na tela. A fila do ingresso pagou a dívida que a fila da calçada não pagou.

Tem também o creme de cabelo. Os anúncios de brilhantina vendiam o cabelo colado do sheik, e a mesma imprensa que vendia o brilho tinha chamado o dono do penteado de borla de pó cor-de-rosa cinco semanas antes.

Natacha Rambova, ex-mulher dele, publicou ainda em 1926 um livro de memórias com mensagens que dizia ter recebido do outro lado, por meio de médium. O volume vendeu, e a sessão espírita virou negócio de temporada.

A funerária também saiu ganhando. O nome Campbell entrou de graça em todas as páginas daquela semana, e o agente de imprensa que inventou a guarda de camisas pretas passou a ser citado como referência do ofício.

O acervo guarda a página comercial inteira, e é ela que sobra. A manchete sai de circulação em uma semana, e o anúncio volta na edição seguinte, porque quem paga por espaço paga pra repetir.

Vale reparar no que a página comercial não vendia. Faltava anúncio de leito de hospital, de boletim médico e de cirurgia de emergência, que foram as três coisas que decidiram aquela semana.

Em 1926 o antibiótico ainda não existia. A penicilina só apareceu em 1928, e mesmo assim levou mais de uma década pra virar remédio de farmácia.

O que a página 3 vendia era a permanência: disco, lata, ingresso e livro, todos prometendo que o sheik continuava disponível.

Do outro lado da conta, o cinema falado chegou em 1927 e trocou o cartaz inteiro em dois anos. O rosto que funcionava em qualquer idioma virou o rosto de um formato encerrado.

A página 3 vendia a permanência do sheik. A primeira página do mesmo jornal já tinha impresso a data em que ela terminou.

"Quantos boletins bons cabem entre a notícia e o desfecho?"

 
 
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