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ED 006

Os Onze Dias de Busca por Agatha Christie

Em 4 de dezembro de 1926 o carro da escritora aparece parado numa encosta de Surrey, e quinze mil voluntários passam a varrer o mato atrás dela.

Um livro de registro de hotel aberto sobre madeira escura, com uma caneta-tinteiro atravessada na página e luvas de dirigir ao lado.

O registro de hóspede, dezembro de 1926

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Em abril de 1926, Agatha Christie perdeu a mãe. Clara Miller foi enterrada e a filha passou o verão sozinha em Ashfield, a casa de Torquay onde tinha crescido, esvaziando armário, queimando carta velha e comendo pouco. Tinha 35 anos e um livro novo nas vitrines.

O livro era O Assassinato de Roger Ackroyd, publicado em junho pela William Collins. A última página trazia uma virada que dividiu os leitores de romance policial em dois campos e fez o nome da autora circular muito além das colunas de resenha.

Em agosto o marido pediu o divórcio. O coronel Archibald Christie, veterano do Royal Flying Corps e empregado da City de Londres, tinha se apaixonado por Nancy Neele, dez anos mais nova, apresentada ao casal no círculo de golfe de Sunningdale.

A casa dos dois ficava em Sunningdale, em Berkshire, e chamava-se Styles, batismo tirado do primeiro romance que ela publicou. Ali moravam o casal, a filha Rosalind, de sete anos, a secretária Charlotte Fisher e a empregada.

Na noite de sexta-feira, 3 de dezembro, houve discussão em Styles. Archie tinha avisado que passaria o fim de semana com amigos em Godalming, no condado vizinho, e Nancy Neele estaria na mesma casa.

Por volta das nove e quarenta e cinco, Agatha subiu a escada, olhou a filha dormindo, desceu, deixou cartas datilografadas sobre a mesa e saiu de casa. A empregada ouviu o motor do Morris Cowley pegar no frio e o carro descer a rua.

Uma escritora de 36 anos sumida do mapa era, naquele dezembro, o assunto exato que a imprensa britânica sabia transformar em campanha. Não havia televisão, o rádio engatinhava como veículo de notícia, e os diários de Londres disputavam leitor com fotografia grande na capa.

A primeira página de hoje começa na manhã seguinte, quando a polícia de Surrey abriu uma ficha de pessoa desaparecida com o nome de Agatha Christie no lugar reservado ao anônimo.

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I  A Primeira Página de Hoje

O carro parado em Newlands Corner

O carro apareceu antes de qualquer testemunha. Na manhã de sábado, 4 de dezembro de 1926, um Morris Cowley estava atravessado numa encosta de giz em Newlands Corner, perto de Guildford, em Surrey, com a frente apontada para o barranco e os faróis acesos.

Dentro havia um casaco de pele, uma mala com roupa e uma carteira de motorista vencida. Não havia bolsa, não havia dinheiro e não havia a dona do carro.

"IDADE 36 ANOS, CABELO RUIVO CURTO COM FIOS GRISALHOS, SAIA CINZA DE MALHA, PULÔVER VERDE, CHAPÉU DE VELUDO PEQUENO, ANEL DE PLATINA COM UMA PÉROLA, SEM ALIANÇA", descrição distribuída pela polícia de Surrey aos jornais britânicos em dezembro de 1926.

A ficha saiu impressa com a fotografia ao lado. O marido foi ouvido no primeiro dia: Archie passara a sexta e o sábado em Godalming, junto da mulher por quem pedira o divórcio.

O subchefe de polícia de Surrey, William Kenward, montou a maior busca que a região já tinha visto. Dragaram o Silent Pool, o lago fundo a poucos minutos da encosta, revistaram poço abandonado e mina de giz e soltaram cães de faro no vale de Albury.

Vieram aviões também, e os jornais registraram o sobrevoo como novidade absoluta na ilha.

No domingo, 12 de dezembro, a busca virou acontecimento de fim de semana. Quinze mil voluntários, entre policiais, moradores e curiosos vindos de Londres, varreram Newlands Corner quase ombro a ombro.

Escritores entraram pela porta da frente. Arthur Conan Doyle, que defendia o espiritismo em público, levou uma luva dela a um médium de Londres. Dorothy L. Sayers foi à encosta ler o terreno e voltou sem tese.

As teorias ocuparam a capa por onze dias: acidente na curva, fuga voluntária, crime dentro de casa e golpe de publicidade. O secretário do Interior, William Joynson-Hicks, cobrou resultado por telefone.

A pista que encurtaria tudo estava numa das cartas deixadas na mesa de Styles. O cunhado, Campbell Christie, contou depois que a dele mencionava uma estação de águas em Yorkshire, e o papel não chegou à polícia.

Ela estava em Harrogate desde o sábado, a mais de trezentos quilômetros do carro, no Swan Hydropathic Hotel. Assinara o registro como Teresa Neele, vinda da Cidade do Cabo, com o sobrenome da mulher com quem o marido queria casar.

Passou onze dias tomando banho de águas termais, jogando bilhar, dançando no salão à noite e lendo nos jornais do saguão a busca por ela mesma.

Na terça-feira, 14 de dezembro, dois músicos da banda do hotel compararam a hóspede com a fotografia do jornal da manhã. O banjista Bob Tappin avisou a polícia local, e o telegrama subiu a linha até Berkshire.

Archie chegou de trem no fim da tarde e esperou no saguão. Os médicos chamados em seguida, entre eles o neurologista Donald Core, assinaram uma nota conjunta entregue à imprensa em dezembro de 1926.

Uma perda de memória inquestionavelmente genuína.

A nota fechou o caso para a polícia e não fechou para os jornais. No dia seguinte a família levou Agatha para Abney Hall, e a operação de Surrey foi desmontada em poucas horas.

 
 

II  O Que Aconteceu Depois

A pergunta que ela nunca respondeu

A primeira página daqueles dias trouxe a busca, a fotografia e a recompensa. O que ela não podia trazer é que os onze dias fariam de uma romancista de tiragem média o nome mais vendido da ficção policial, e que a autora deixaria o episódio fora do livro em que contou a vida inteira.

A conta chegou primeiro. Jornal que bancara manchete e recompensa passou a cobrar explicação, e a perda de memória foi tratada com desconfiança aberta em coluna assinada.

A despesa pública entrou na discussão. Policial deslocado, avião, cão e hora extra saíram do orçamento de Surrey, e a pergunta sobre quem pagaria a busca chegou ao Parlamento.

Agatha Christie falou do assunto uma vez. Em fevereiro de 1928 deu entrevista ao Daily Mail, descreveu colapso nervoso, disse que acordara em Harrogate sem saber como chegara e não voltou ao tema.

O casamento acabou na papelada em 1928. O divórcio saiu naquele outubro, Archie casou com Nancy Neele em seguida, e a escritora manteve o sobrenome Christie na capa porque o nome já estava na cabeça do público.

Em 1928 ela embarcou sozinha no Expresso do Oriente rumo a Bagdá. Em 1930, numa escavação em Ur, conheceu o arqueólogo Max Mallowan, catorze anos mais novo, e casou com ele em setembro do mesmo ano.

A obra mudou de patamar na mesma virada de década. Em 1930 saiu Assassinato na Casa do Pastor, o romance que apresentou Miss Marple e abriu a segunda linhagem de detetive da autora, ao lado do belga Hercule Poirot.

Os números seguiram subindo por quarenta e cinco anos. As edições dela passaram de dois bilhões de exemplares e foram traduzidas em mais de cem idiomas, marca que nenhum outro romancista alcançou.

A editora que a contratara em 1926 publicou cada livro novo dela até 1976. A virada de Roger Ackroyd abriu a porta, e dezembro imprimiu o nome em toda banca da ilha sem campanha de lançamento.

A autobiografia foi escrita entre 1950 e 1965 e publicada em 1977. Ela contou a infância em Torquay, a farmácia de hospital onde aprendeu sobre veneno e as escavações no Iraque, e pulou dezembro de 1926.

Sobre aquele ano ficou uma linha só, escrita na autobiografia sobre o luto e o fim do casamento: depois da doença vieram a tristeza, o desespero e a dor.

O hotel de Harrogate trocou de nome para The Old Swan. Desde 2003 o salão onde ela dançou como Teresa Neele recebe todo verão o maior festival de literatura policial do país.

O cinema chegou em 1979 e inventou para os onze dias um enredo de vingança. A biógrafa autorizada, Janet Morgan, escreveu em 1984 a versão mais próxima do arquivo, sem uma frase da própria Agatha.

O inquérito de Surrey está encerrado desde 1926. A explicação da hóspede de Harrogate nunca ganhou assinatura de quem se hospedou.

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III  O Anúncio da Página 3

O classificado que ela mesma pagou

A primeira página: o The Times de 1926 não trazia manchete na capa. A capa era coluna de classificado, recado pessoal, oferta de emprego e anúncio de leilão, e a notícia só começava lá dentro. O jornal manteria esse desenho até 1966.

O anúncio: em 11 de dezembro de 1926, no meio da coluna de recados pessoais, saiu uma linha em nome de Teresa Neele. Amigos e parentes de Teresa Neele, recentemente da África do Sul, queiram entrar em contato, escrever para a caixa R.702. O nome era o mesmo do registro do hotel de Harrogate.

A recompensa: o Daily News ofereceu cem libras a quem desse a informação que a encontrasse, imprimiu a fotografia em tamanho grande e sustentou o caso na capa por onze dias seguidos. Diário rival respondeu com manchete própria.

Tem também o preço de manter a busca de pé. Voluntário não custa salário, mas custa trem, chá e policial de plantão, e a fatura de Surrey virou assunto de coluna assim que ela apareceu num hotel.

A lógica daquelas capas nada tinha de piedosa. Os diários de Londres vendiam mais de um milhão de exemplares por dia e disputavam leitor com o caso que rendesse mais tempo na banca, e uma romancista desaparecida rendia semanas.

O anúncio de Harrogate estava do outro lado da mesma indústria. A cidade se vendia como estação de águas para inglês cansado, e o Swan Hydropathic anunciava banho medicinal, salão de baile e orquestra na temporada de inverno.

O hotel comprava espaço nos mesmos jornais que estampavam o retrato da hóspede. Enquanto a página de notícia a procurava no mato de Surrey, a página de anúncio convidava o leitor a passar uma semana onde ela estava.

A conta daquela quinzena inverte a hierarquia da página. A recompensa de cem libras não achou nada. A busca de quinze mil pessoas não achou nada. O classificado mais barato da coluna trazia o nome que a Grã-Bretanha inteira procurava.

Nenhum dos dois lados lia o que o outro imprimia. A redação procurava um corpo em Newlands Corner enquanto a coluna de recados já publicava a assinatura da desaparecida.

O acervo de dezembro de 1926 guarda as duas na mesma dobra de papel: a encosta de giz com voluntários em fila e a linha de Teresa Neele pedindo contato.

A busca custou onze dias de capa e quinze mil pares de pés no mato de Surrey. A resposta estava impressa numa linha de classificado, paga por quem estava sendo procurada, ao preço de alguns xelins.

"Quanto vale uma capa de onze dias quando o nome que ela procura já está impresso na coluna de classificados?"

 
 
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Com que sobrenome Agatha Christie assinou o registro do hotel em Harrogate?

AMiller, o nome de solteira dela
BNeele, o da mulher por quem o marido pediu o divórcio
CMallowan, o do arqueólogo com quem casaria em 1930
DKenward, o do policial que comandou a busca

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