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O carro apareceu antes de qualquer testemunha. Na manhã de sábado, 4 de dezembro de 1926, um Morris Cowley estava atravessado numa encosta de giz em Newlands Corner, perto de Guildford, em Surrey, com a frente apontada para o barranco e os faróis acesos.
Dentro havia um casaco de pele, uma mala com roupa e uma carteira de motorista vencida. Não havia bolsa, não havia dinheiro e não havia a dona do carro.
"IDADE 36 ANOS, CABELO RUIVO CURTO COM FIOS GRISALHOS, SAIA CINZA DE MALHA, PULÔVER VERDE, CHAPÉU DE VELUDO PEQUENO, ANEL DE PLATINA COM UMA PÉROLA, SEM ALIANÇA", descrição distribuída pela polícia de Surrey aos jornais britânicos em dezembro de 1926.
A ficha saiu impressa com a fotografia ao lado. O marido foi ouvido no primeiro dia: Archie passara a sexta e o sábado em Godalming, junto da mulher por quem pedira o divórcio.
O subchefe de polícia de Surrey, William Kenward, montou a maior busca que a região já tinha visto. Dragaram o Silent Pool, o lago fundo a poucos minutos da encosta, revistaram poço abandonado e mina de giz e soltaram cães de faro no vale de Albury.
Vieram aviões também, e os jornais registraram o sobrevoo como novidade absoluta na ilha.
No domingo, 12 de dezembro, a busca virou acontecimento de fim de semana. Quinze mil voluntários, entre policiais, moradores e curiosos vindos de Londres, varreram Newlands Corner quase ombro a ombro.
Escritores entraram pela porta da frente. Arthur Conan Doyle, que defendia o espiritismo em público, levou uma luva dela a um médium de Londres. Dorothy L. Sayers foi à encosta ler o terreno e voltou sem tese.
As teorias ocuparam a capa por onze dias: acidente na curva, fuga voluntária, crime dentro de casa e golpe de publicidade. O secretário do Interior, William Joynson-Hicks, cobrou resultado por telefone.
A pista que encurtaria tudo estava numa das cartas deixadas na mesa de Styles. O cunhado, Campbell Christie, contou depois que a dele mencionava uma estação de águas em Yorkshire, e o papel não chegou à polícia.
Ela estava em Harrogate desde o sábado, a mais de trezentos quilômetros do carro, no Swan Hydropathic Hotel. Assinara o registro como Teresa Neele, vinda da Cidade do Cabo, com o sobrenome da mulher com quem o marido queria casar.
Passou onze dias tomando banho de águas termais, jogando bilhar, dançando no salão à noite e lendo nos jornais do saguão a busca por ela mesma.
Na terça-feira, 14 de dezembro, dois músicos da banda do hotel compararam a hóspede com a fotografia do jornal da manhã. O banjista Bob Tappin avisou a polícia local, e o telegrama subiu a linha até Berkshire.
Archie chegou de trem no fim da tarde e esperou no saguão. Os médicos chamados em seguida, entre eles o neurologista Donald Core, assinaram uma nota conjunta entregue à imprensa em dezembro de 1926.
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Uma perda de memória inquestionavelmente genuína.
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A nota fechou o caso para a polícia e não fechou para os jornais. No dia seguinte a família levou Agatha para Abney Hall, e a operação de Surrey foi desmontada em poucas horas.
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