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Os Três Dias de Varsóvia

Entre 12 e 14 de maio de 1926, Józef Piłsudski toma Varsóvia com tropas leais e depois recusa a presidência da Polônia.

Uma ponte de aço rebitada sobre um rio largo, vazia ao amanhecer.

Ponte de aço sobre o Vístula, 1926

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Em 2 de julho de 1923, Józef Piłsudski deixou o último posto público que ocupava, a chefia do Estado-Maior Geral, e se recolheu a uma casa em Sulejówek, onde passou a viver de conferências pagas e da venda de livros de memórias. Em 12 de maio de 1926, sem cargo militar, sem mandato parlamentar e sem função de governo, ele comandava regimentos do Exército polonês em marcha sobre a capital do próprio país.

Os dois fatos são documentados e cabem numa distância de menos de três anos. Um mostra um general aposentado sem tropa. O outro mostra o mesmo homem à frente de unidades regulares que juraram lealdade ao Estado, avançando contra o governo desse Estado.

A moldura legal que os separava era a Constituição de Março, promulgada em 17 de março de 1921. Ela desenhou uma república de parlamento forte e presidente decorativo: o chefe de Estado não vetava lei, não dissolvia câmara e não legislava por decreto. O Sejm mandava, e o Sejm era fragmentado.

O resultado apareceu na contabilidade dos gabinetes. Entre novembro de 1918 e maio de 1926, a Polônia trocou de governo catorze vezes. Nenhum primeiro-ministro completou dois anos seguidos no cargo, e a moeda que Władysław Grabski criou em 1924, o złoty, perdeu boa parte do valor na crise cambial de 1925, com desemprego industrial em alta nas cidades.

Em 10 de maio de 1926, Wincenty Witos assumiu pela terceira vez a chefia do governo, à frente da mesma coalizão de centro-direita e camponeses que a oposição chamava de Chjeno-Piast. Dois dias depois, colunas militares vindas de Rembertów estavam nos arredores de Varsóvia.

A primeira página de hoje é o que aconteceu nas pontes do Vístula entre 12 e 14 de maio de 1926, e a decisão que o vencedor tomou três semanas depois, quando o cargo mais alto da República lhe foi entregue por votação.

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I  A Primeira Página de Hoje

O encontro na ponte Poniatowski

Na tarde de 12 de maio de 1926, dois homens se encontraram no meio da ponte Poniatowski, sobre o Vístula. De um lado, o presidente da República, Stanisław Wojciechowski, que tinha voltado às pressas de Spała. Do outro, Józef Piłsudski, com as tropas que o seguiam paradas atrás dele. Os dois se conheciam desde os tempos do Partido Socialista Polonês, no início do século.

A conversa durou poucos minutos e fracassou. Wojciechowski exigiu que as unidades voltassem aos quartéis e que a autoridade constitucional fosse respeitada. Piłsudski pediu a demissão do gabinete Witos. Nenhum dos dois cedeu, e o presidente deixou a ponte a pé, de volta ao lado leste da cidade.

Sou o representante do direito na Polônia e exijo respeito ao direito.

Stanisław Wojciechowski, presidente da República da Polônia, na ponte Poniatowski, 12 de maio de 1926

O tiroteio começou naquela mesma noite e durou até 14 de maio de 1926. Foram três dias de combate urbano dentro de uma capital europeia em tempo de paz, entre unidades regulares do mesmo exército, separadas apenas pela lealdade a um homem ou a um gabinete.

A geografia da luta foi definida pelo rio. As forças de Piłsudski chegaram pelo leste, por Praga, e precisavam das pontes para alcançar o Belweder e os ministérios. As tropas fiéis ao governo defendiam o centro. Metralhadoras e artilharia leve operaram nas cabeceiras da ponte Kierbedź e da ponte Poniatowski, com prédios civis na linha de fogo.

O fator que decidiu a disputa não estava nas pontes. Os sindicatos ferroviários, ligados ao Partido Socialista Polonês, declararam greve e pararam os trens que traziam reforços leais ao governo das guarnições de Poznań e da Grande Polônia. As divisões que poderiam ter virado o confronto ficaram nos trilhos.

A conta dos três dias, item por item:

Início do confronto: 12 de maio de 1926
Fim dos combates: 14 de maio de 1926
Baixas fatais: 215 militares e 164 civis, quase quatrocentas pessoas
Feridos: cerca de 900
Presidente da República: Stanisław Wojciechowski, renunciou em 14 de maio
Primeiro-ministro deposto: Wincenty Witos, empossado quatro dias antes, em 10 de maio
Quem assumiu a chefia do Estado: Maciej Rataj, marechal do Sejm, por regra constitucional

O desfecho respeitou a forma. Witos e Wojciechowski renunciaram na noite de 14 de maio, e a Constituição de Março previa que, na vacância da presidência, o marechal do Sejm assumisse. Maciej Rataj assumiu, nomeou Kazimierz Bartel primeiro-ministro em 15 de maio e convocou a Assembleia Nacional. O golpe foi vencido pelas armas e depois encaixado no texto que ele tinha violado.

 
 

II  O Que Aconteceu Depois

O cargo recusado em 31 de maio

Em 31 de maio de 1926, a Assembleia Nacional polonesa elegeu Józef Piłsudski presidente da República por 292 votos. Ele recusou o cargo por carta dois dias depois, e no dia 1º de junho a mesma assembleia elegeu Ignacy Mościcki, químico e reitor, indicado por ele.

A recusa não foi renúncia ao poder. Piłsudski ficou com o Ministério dos Assuntos Militares e criou para si a posição de Inspetor Geral das Forças Armadas, cargo que não respondia ao parlamento nem ao gabinete. Governou do quartel e da caserna, com dois períodos curtos como primeiro-ministro, entre 1926 e 1928 e em 1930.

A explicação está na aritmética da Constituição de 1921. A presidência que ele acabava de conquistar era o posto mais decorativo do sistema: sem veto, sem decreto e sem dissolução de câmara. Aceitá-la seria trocar comando real por cerimônia, e ele preferiu manter o Exército e entregar o Belweder a um aliado sem base política própria.

O ajuste do texto veio em seguida. A emenda constitucional de 2 de agosto de 1926, conhecida como Novela de Agosto, deu ao presidente o poder de dissolver o parlamento e de legislar por decreto entre sessões, e transferiu o orçamento para as mãos do executivo quando o Sejm não votasse no prazo. O regime que se seguiu ficou conhecido como Sanacja, palavra latina para cura ou saneamento.

O que veio depois, ano a ano:

1926: Novela de Agosto amplia os poderes do presidente e institui a Sanacja
1928: nasce o Bloco Apartidário de Cooperação com o Governo, o BBWR, que vence as eleições
1930: líderes da oposição são presos e levados à fortaleza de Brest, entre eles Wincenty Witos
1930: eleições de novembro, chamadas de eleições de Brest, dão maioria ao BBWR
1935: a Constituição de Abril, promulgada em 23 de abril, cria uma presidência acima do parlamento
1935: Piłsudski falece em 12 de maio, nove anos exatos depois da marcha sobre a capital
1939: o regime que ele desenhou governa a Polônia até a invasão alemã de setembro

O paradoxo do desenho apareceu na sucessão. A Constituição de Abril foi feita sob medida para um homem que não viveu para usá-la, e o poder se dividiu entre o marechal Edward Rydz-Śmigły, o presidente Mościcki e o chanceler Józef Beck. O arranjo dos coronéis governou até setembro de 1939 sem nunca ter a autoridade concentrada que a Sanacja prometia.

Wincenty Witos, o primeiro-ministro deposto nas pontes, foi preso em 1930, condenado no processo de Brest e partiu para o exílio na Tchecoslováquia em 1933. Voltou à Polônia em 1939, poucos meses antes da guerra.

 

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III  O Anúncio da Página 3

O reclame que dividia a página com o tiroteio

A página: os diários de Varsóvia em maio de 1926 traziam o combate na primeira página e, algumas folhas adiante, a economia urbana que pagava a impressão. O Kurjer Warszawski, fundado em 1821, e o Robotnik, órgão do Partido Socialista Polonês fundado em 1894, davam versões opostas dos mesmos três dias e vendiam espaço para os mesmos anunciantes.

O anúncio: o nome mais constante nessas páginas era o da fábrica de chocolate E. Wedel, estabelecida em Varsóvia em 1851, que anunciava cacau e bombons com marca registrada e assinatura manuscrita do fundador como selo contra falsificação. Ao lado dela vinham a casa de departamentos Bracia Jabłkowscy, aberta na rua Bracka em 1914, e a farmacêutica Ludwik Spiess i Syn.

A coluna: completavam a página os avisos do PKO, o banco postal de poupança criado em 1919, a tabela de câmbio do złoty, os horários dos cinemas do centro e a programação da Polskie Radio, que tinha começado a transmitir de Varsóvia em 18 de abril de 1926, menos de um mês antes do golpe.

A ficha da imprensa e do reclame polonês do período, item por item:

Diário fundado em 1821Kurjer Warszawski, o mais antigo da capital
Diário operário fundado em 1894Robotnik, do Partido Socialista Polonês
Anunciante fixo de chocolateE. Wedel, fábrica estabelecida em Varsóvia em 1851
Casa de departamentos anuncianteBracia Jabłkowscy, na rua Bracka desde 1914
Farmacêutica anuncianteLudwik Spiess i Syn
Banco de poupança anunciantePKO, criado em 1919
Rádio em operaçãoPolskie Radio, primeira transmissão regular em 18 de abril de 1926

A novidade técnica pesou no confronto. O rádio de Varsóvia tinha menos de trinta dias de operação regular quando as tropas cruzaram o Vístula, e a disputa pelo transmissor entrou no cálculo militar dos dois lados. Quem controlasse a estação falava com a cidade inteira sem depender de tipógrafo, de papel ou de entregador.

A imprensa sentiu o efeito na semana seguinte. Jornais de oposição tiveram edições apreendidas, e os anunciantes que compravam espaço fixo continuaram comprando, porque a página de reclame não muda de governo. Quem lê a coleção de maio de 1926 encontra o mesmo cacau anunciado na folha ao lado da lista de mortos.

Os documentos centrais continuam acessíveis e datados. A Novela de Agosto está publicada no Dziennik Ustaw de 1926, digitalizado no acervo legislativo do Sejm polonês, e as coleções do Kurjer Warszawski e do Robotnik daquele maio estão na biblioteca digital Polona, da Biblioteca Nacional da Polônia. O centenário dos três dias cai em 12 de maio de 2026. Reconfira as duas fontes na semana do centenário, uma no acervo do Sejm e a outra no Polona.

"Recusar a presidência foi gesto de desprezo pelo cargo ou a jogada mais eficiente para governar sem prestar contas?"

 
 

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Depois que Wincenty Witos e Stanisław Wojciechowski renunciaram na noite de 14 de maio de 1926, quem assumiu a chefia do Estado polonês por regra constitucional?

AKazimierz Bartel, primeiro-ministro nomeado em seguida
BIgnacy Mościcki, químico e reitor
CMaciej Rataj, marechal do Sejm
DJózef Piłsudski, comandante das tropas vencedoras

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