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Philo Farnsworth e a linha reta que a RCA levou 12 anos para pagar

Em 7/9/1927, na rua Green, em São Francisco, Philo Farnsworth transmite uma linha reta, e a RCA só paga royalties em 1939.

Tubo de vidro de laboratório dos anos 1920 sobre mesa escura.

São Francisco, Califórnia, 7 de setembro de 1927

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Em 7/4/1927, o New York Times pôs na primeira página a imagem de Herbert Hoover, então secretário do Comércio dos Estados Unidos, transmitida pela AT&T de Washington a Nova York. Em 7/9/1927, a primeira imagem de televisão eletrônica atravessou uma sala de São Francisco, e nenhum jornal do país publicou uma linha sobre ela.

A transmissão de abril virou manchete e saiu de uso em poucos anos. A de setembro ficou anotada num caderno de laboratório e virou a base dos tubos de imagem que ocuparam as salas de estar até a chegada das telas planas.

A diferença estava no método. O sistema da AT&T era mecânico: um disco de Nipkow (disco de metal furado em espiral, patenteado pelo alemão Paul Nipkow em 1884) girava diante da cena e cortava a luz em faixas.

Um disco que gira tem limite de tamanho e de velocidade. Para ganhar linhas na imagem, ele precisava crescer e girar mais rápido, e a nitidez travava em poucas dezenas de linhas.

O aparelho de São Francisco não tinha peça móvel. Um feixe de elétrons, desviado por ímãs, varria a imagem dentro de um tubo de vidro sem ar, linha por linha, numa velocidade que nenhum disco alcançava.

Quem montou o tubo foi Philo Taylor Farnsworth, de 21 anos, sem diploma universitário. O laboratório ficava no número 202 da rua Green, ao pé do morro Telegraph Hill, num sobrado alugado.

O aluguel saía do bolso de dois arrecadadores de fundos de Salt Lake City, George Everson e Leslie Gorrell, e de um grupo de banqueiros da Califórnia. Os banqueiros tinham posto dinheiro com uma condição: ver o tubo funcionar.

Em setembro de 1927, a paciência dos financiadores já era assunto da casa. Farnsworth gastava as verbas em vidro soprado sob encomenda, bombas de vácuo e fios de cobre, e cada tubo queimado custava semanas de trabalho.

As páginas abaixo abrem na tarde em que o tubo, enfim, desenhou um traço no receptor.

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I  A Primeira Página de Hoje

O traço que girou com o vidro

Philo Taylor Farnsworth nasceu em 19/8/1906, numa cabana de troncos em Indian Creek, perto de Beaver, no estado de Utah. Em 7/9/1927, estava de pé diante de um receptor no laboratório da rua Green.

Na sala vizinha, o cunhado Cliff Gardner, irmão de Elma Gardner Farnsworth, a mulher de Philo, cuidava do transmissor. Entre uma lâmpada de arco e o tubo, Gardner pôs uma lâmina de vidro com uma linha preta pintada.

O tubo transmissor se chamava dissecador de imagem (image dissector, em inglês). Ele transformava a luz da cena em elétrons e os conduzia, faixa por faixa, até uma pequena abertura que media a claridade de cada ponto.

No receptor, um segundo tubo refazia o caminho ao contrário e acendia os pontos numa tela fosca. Ali, na frente de Farnsworth, de Elma e de George Everson, apareceu uma linha clara.

Gardner girou a lâmina 90 graus. A linha na tela girou junto.

Uma linha que gira quando o vidro gira prova que a imagem saiu da câmera, e não de interferência elétrica no fio.

A escolha da linha reta tinha essa função. Um borrão qualquer podia ser defeito do aparelho; um traço que obedece à mão de quem está na outra sala, não.

Farnsworth anotou no caderno do laboratório: “The received line picture was evident this time” (a imagem da linha recebida ficou evidente desta vez). Everson mandou um telegrama a Gorrell, em Los Angeles: “The damned thing works!” (a maldita geringonça funciona).

A ideia tinha nascido seis anos antes, num campo de batatas em Rigby, Idaho. Aos 14 anos, guiando o arado em fileiras paralelas, Farnsworth pensou em varrer uma imagem do mesmo modo, faixa por faixa, com elétrons em vez de lâminas de ferro.

Em 1922, desenhou o esquema no quadro-negro para o professor de química do colégio de Rigby, Justin Tolman. O desenho voltaria anos depois, num tribunal de patentes.

Farnsworth tinha registrado a patente do “Television System” (sistema de televisão) em 7/1/1927, oito meses antes da linha aparecer. A demonstração de setembro era a prova de que o papel descrevia um aparelho que funcionava.

O casamento com Elma, chamada de Pem pela família, tinha sido em 27/5/1926. Ela trabalhou no laboratório desde o começo, soldando peças e fazendo desenhos técnicos, e seria, em 1929, o primeiro rosto humano transmitido pelo sistema.

A trajetória até a linha:

19/8/1906: nascimento em Indian Creek, Utah
1921: a ideia no campo de batatas, em Rigby
1922: o esquema no quadro de Justin Tolman
27/5/1926: casamento com Elma Gardner
7/1/1927: pedido da patente do sistema de televisão
7/9/1927: a linha reta aparece no receptor
 
 

II  O Que Aconteceu Depois

A disputa que a RCA perdeu em Washington

O laboratório só abriu as portas à imprensa um ano depois. Em 3/9/1928, o San Francisco Chronicle publicou a reportagem sobre o rapaz da rua Green que prometia revolucionar a televisão.

No mesmo ano, para acalmar os investidores, Farnsworth transmitiu a imagem de um cifrão. Everson tinha perguntado quando veriam algum dinheiro com aquela invenção, e a resposta veio na tela.

A patente saiu em 26/8/1930, com o número 1.773.980 no escritório de patentes dos Estados Unidos. Meses antes, em abril de 1930, o laboratório recebeu uma visita de três dias de Vladimir Zworykin, engenheiro russo contratado pela RCA para desenvolver a televisão da empresa.

George Everson registrou a reação do visitante no livro The Story of Television (1949): “I wish that I might have invented it” (eu queria ter inventado este aparelho). Zworykin voltou a Nova Jersey e a RCA acelerou o próprio tubo de câmera, o iconoscópio.

Em 1931, David Sarnoff, presidente da RCA, foi pessoalmente à rua Green. Ofereceu US$ 100 mil pela empresa e pelos serviços do inventor. Farnsworth recusou.

A RCA respondeu no escritório de patentes. Abriu um processo de interferência (disputa sobre quem inventou primeiro), alegando que Zworykin tinha a prioridade por um pedido de 1923.

O argumento de Farnsworth estava no quadro-negro de 1922. Justin Tolman viajou para depor e reproduziu de memória o desenho que o aluno de 15 anos tinha feito na aula de química.

Em 1935, o escritório de patentes deu a prioridade a Farnsworth. A RCA recorreu e perdeu de novo.

A maior fabricante de rádios dos Estados Unidos perdeu a disputa para um inventor que tinha estudado num colégio rural de Idaho.

Em 30/4/1939, na abertura da Feira Mundial de Nova York, a RCA estreou a transmissão regular de televisão com o presidente Franklin Roosevelt diante das câmeras. Sem a licença de Farnsworth, cada aparelho vendido corria o risco de virar processo.

Em setembro de 1939, a RCA assinou o acordo: US$ 1 milhão ao longo de 10 anos, mais royalties (taxa por uso da patente) sobre os aparelhos. Foi a primeira vez que a empresa aceitou pagar royalties a um inventor de fora.

O dinheiro chegou tarde. Em 1942, a Segunda Guerra suspendeu a fabricação de televisores nos Estados Unidos, e as patentes principais de Farnsworth expiraram no final dos anos 1940, quando as vendas começavam a crescer.

A empresa dele, a Farnsworth Television and Radio Corporation, foi vendida à ITT em 1949.

A cronologia da disputa:

3/9/1928: primeira reportagem no San Francisco Chronicle
Abril de 1930: visita de Zworykin à rua Green
26/8/1930: patente 1.773.980 concedida
1931: oferta de US$ 100 mil de Sarnoff, recusada
1935: escritório de patentes dá a prioridade a Farnsworth
Setembro de 1939: acordo de licença com a RCA
 

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III  O Anúncio da Página 3

O rádio que a RCA anunciava em 1927

A página: os jornais de São Francisco de 8/9/1927 não trouxeram nada sobre a rua Green. O laboratório pedia sigilo aos financiadores enquanto a patente tramitava, e a demonstração só virou notícia em setembro de 1928.

O anúncio: nas páginas de 1927, quem vendia aparelho de sala era o rádio. A RCA anunciava a linha Radiola, receptores em caixa de madeira para a família ouvir notícia, música e jogo de beisebol.

A coluna: quando o assunto era televisão, os colunistas falavam do escocês John Logie Baird, que tinha mostrado imagens em Londres em 26/1/1926, e da transmissão de Hoover pela AT&T. Os dois sistemas usavam disco giratório.

A televisão eletrônica entrou na sala pelo mesmo caminho do rádio. A RCA aproveitou a rede de lojas que vendia Radiolas para vender televisores depois da guerra, e o tubo que ela fabricava pagava licença ao laboratório da rua Green.

Farnsworth seguiu inventando. Nos anos 1960, trabalhou num fusor (aparelho que tenta prender núcleos de átomos num campo elétrico para gerar energia), projeto que não chegou a produzir mais energia que consumia.

Em 3/7/1957, apareceu como convidado misterioso do programa I've Got a Secret, da CBS. Os jurados não adivinharam que estavam diante do inventor da televisão eletrônica.

Philo Farnsworth saiu de cena em 11/3/1971, em Salt Lake City, aos 64 anos. Em 1990, o estado de Utah pôs uma estátua dele no National Statuary Hall, no Capitólio, em Washington.

Elma Farnsworth viveu até 2006 e passou décadas reunindo documentos para registrar o papel do marido. Em 1989, publicou o livro Distant Vision (visão a distância), com a versão dela da tarde de 1927.

O que não se sabe é a frase exata dita na sala naquela tarde. O único registro escrito da hora é o caderno do laboratório; as falas chegaram por memórias de Elma e de Everson, escritas anos depois, e as versões não batem palavra por palavra.

A ficha da última página:

Data: 7/9/1927
Lugar: rua Green, 202, São Francisco
Imagem: uma linha reta pintada em vidro
Tubo: dissecador de imagem
Acordo com a RCA: setembro de 1939

“Você recusaria US$ 100 mil para brigar 8 anos pela sua invenção?”

O centenário da linha cai em 7/9/2027, uma terça-feira. Nessa data, reconfira a placa de marco histórico da Califórnia na esquina das ruas Green e Sansome, em São Francisco, e o texto da patente 1.773.980 no Google Patents, em patents.google.com.

 
 
A Página do Seu Nascimento: oito etapas, uma por dia: A data que a família reconhece, A ficha do jornal daquela praça, A busca até a primeira página, O degrau do plano B, A transcrição da manchete, O filtro de teor, A regra de uso antes da gráfica, A folha impressa e o verso. Começar pelo dia 1.

Começar pelo dia 1 →

 
Quiz da edição

No acordo fechado em setembro de 1939, quanto a RCA pagou a Farnsworth ao longo de 10 anos, além de royalties pelas patentes?

AUS$ 100 mil
BUS$ 1 milhão
CUS$ 10 milhões
DUS$ 500 mil

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