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Saad Zaghloul e a retirada britânica que esperou 9 anos

Em 23/8/1927, Saad Zaghloul sai de cena no Cairo, o Wafd passa a Mustafa el-Nahas e Londres só assina a retirada em 1936.

Tarbuche vermelho sobre jornais árabes dos anos 1920.

Cairo, Egito, 23 de agosto de 1927

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Em 28/2/1922, o governo britânico declarou o Egito um Estado soberano e independente, por ato publicado em Londres e no Cairo. Em 23/8/1927, quando Saad Zaghloul deu o último suspiro em sua casa no Cairo, o quartel de Kasr el-Nil, à beira do rio, seguia ocupado por soldados britânicos.

A independência estava no papel. Os soldados estavam na rua. Os dois fatos conviveram por anos, e Zaghloul passou a velhice cobrando que o segundo obedecesse ao primeiro.

A declaração de 1922 trazia quatro ressalvas, chamadas de pontos reservados (assuntos que Londres guardava para si): a segurança das comunicações do Império, a defesa do Egito, a proteção dos estrangeiros e das minorias, e o Sudão.

Na prática, o Canal de Suez, o exército e a política externa continuavam sob olhar britânico. O sultão Fuad virou rei Fuad I, o país ganhou Constituição em 1923, e o alto comissário britânico seguiu mandando recados ao palácio.

Zaghloul vinha de uma família de proprietários rurais do Delta do Nilo. Estudou na Universidade Al-Azhar, formou-se em direito, foi ministro da Educação em 1906 e da Justiça em 1910.

Em 13/11/1918, dois dias após o armistício da Primeira Guerra, ele e dois colegas foram ao alto comissário Reginald Wingate exigir licença para negociar a independência em Londres. Ouviram um não.

Daquela recusa nasceu o Wafd (palavra árabe para delegação), o partido que dominaria as urnas egípcias pelas três décadas seguintes.

Em 8/3/1919, os britânicos prenderam Zaghloul e o mandaram para Malta. A prisão acendeu greves de advogados, estudantes e ferroviários pelo país inteiro, a chamada Revolução de 1919, e Londres soltou o líder em abril, autorizando a viagem da delegação à conferência de paz em Paris.

As páginas abaixo começam na semana de agosto de 1927 em que o Cairo perdeu Zaghloul, com ele ainda sentado na cadeira de presidente da Câmara dos Deputados.

Continue lendo ↓

 
 

I  A Primeira Página de Hoje

A casa que o Cairo chamou de nação

Saad Zaghloul tinha 68 anos e presidia a Câmara dos Deputados do Egito quando adoeceu no verão de 1927. Deixou de respirar em 23/8/1927, na residência do bairro de Mounira, no centro do Cairo.

A imprensa da época falou de uma doença de poucos dias. Nenhum boletim médico completo foi publicado, e a causa exata segue sem documento público que a confirme.

Fica a pergunta: por que o líder do partido mais votado do país presidia a Câmara, e não o governo? A resposta está numa rua do Cairo, três anos antes.

Zaghloul virou primeiro-ministro em janeiro de 1924, após o Wafd vencer a primeira eleição sob a Constituição nova. Em 19/11/1924, o sirdar (comandante britânico do exército egípcio), Sir Lee Stack, foi baleado no centro da cidade e não resistiu no dia seguinte.

O alto comissário, o marechal Edmund Allenby, respondeu com um ultimato: desculpas formais, multa de 500 mil libras e saída das tropas egípcias do Sudão. Zaghloul renunciou em 24/11/1924.

Nas eleições de maio de 1926, o Wafd venceu outra vez. Londres avisou que não aceitaria Zaghloul na chefia do governo, e ele ficou com a presidência da Câmara, deixando o cargo de primeiro-ministro para Adly Yakan, liberal moderado.

O líder mais votado do país comandava o Parlamento e estava proibido de comandar o governo.

A casa de Mounira já era conhecida desde 1919 como Bayt al-Umma (Casa da Nação). Durante os exílios do dono, manifestantes se reuniam no portão para ouvir notícias de Malta e, mais tarde, das Seicheles, para onde ele foi mandado em 1922.

Quem falava à multidão era a mulher dele, Safiya Zaghloul, filha do ex-primeiro-ministro Mustafa Fahmi. Por esses discursos, ganhou o apelido de Umm al-Misriyyin (Mãe dos Egípcios).

O cortejo do enterro atravessou o centro do Cairo sob escolta, e os jornais saíram com as primeiras páginas dedicadas a ele.

A frase mais repetida como a última de Zaghloul, “Mafish fayda” (não adianta), circula sem testemunho escrito que a confirme. Historiadores egípcios divergem até sobre o momento em que foi dita, e nenhum registro da época a coloca no leito de agosto de 1927.

A trajetória em datas:

13/11/1918: visita a Wingate e nascimento do Wafd
8/3/1919: prisão e exílio em Malta
28/2/1922: independência declarada por Londres
Janeiro de 1924: Zaghloul vira primeiro-ministro
24/11/1924: renúncia após o caso Stack
23/8/1927: Zaghloul sai de cena no Cairo
 
 

II  O Que Aconteceu Depois

O tratado que Nahas levou a Londres

Mustafa el-Nahas, advogado nascido em 1879 em Samanoud, no Delta, foi escolhido para liderar o Wafd semanas após o enterro. Tinha dividido com Zaghloul o exílio nas Seicheles e era o secretário mais próximo do chefe.

Nahas chegou a primeiro-ministro em março de 1928, mas ficou só três meses. O rei Fuad o demitiu em junho, e o governo seguinte suspendeu o Parlamento.

A década seguiu nesse vaivém. Em 1930, Ismail Sidqi assumiu o governo, trocou a Constituição de 1923 por outra que dava mais poder ao rei e reduziu o peso do voto popular. A carta antiga só voltou em 1935.

O que destravou a negociação veio de fora. Em outubro de 1935, a Itália de Mussolini invadiu a Etiópia, vizinha do Sudão, e Londres passou a querer um Egito aliado e calmo perto do canal.

Fuad I deixou o trono em 28/4/1936, e o filho, Farouk, subiu aos 16 anos. O Wafd venceu a eleição de maio, e Nahas voltou à chefia do governo.

Em 26/8/1936, Nahas assinou em Londres o Tratado Anglo-Egípcio. As tropas britânicas sairiam das cidades e ficariam restritas à zona do Canal de Suez, com teto de 10 mil soldados e 400 pilotos, por uma aliança de 20 anos.

O tratado tirou os soldados das ruas do Cairo e os deixou acampados no canal.

No mesmo pacote, Londres apoiou a entrada do Egito na Liga das Nações, que veio em 1937. A Convenção de Montreux, de 8/5/1937, acabou com as capitulações (privilégios que davam a estrangeiros tribunais próprios e isenção de impostos).

Zaghloul ganhou a homenagem prometida no mesmo ano. O mausoléu Darih Saad, erguido em estilo faraônico em frente à casa de Mounira, recebeu os restos dele em 1936, após anos de disputa com governos que preferiam dar outro uso ao prédio.

O acordo não encerrou a briga. Em 8/10/1951, o próprio Nahas revogou o tratado no Parlamento. Em 23/7/1952, os Oficiais Livres derrubaram Farouk, e um acordo de 19/10/1954 marcou a retirada total.

Os últimos soldados britânicos deixaram Port Said em junho de 1956. O Egito comemora a data em 18/6, o Dia da Evacuação.

Farouk acabou no exílio em Roma, onde viveu até 1965. Nahas viveu até 23/8/1965 e saiu de cena no Cairo exatos 38 anos após o chefe que sucedeu.

A cronologia da retirada:

26/8/1936: Tratado Anglo-Egípcio assinado em Londres
8/5/1937: Convenção de Montreux
8/10/1951: Nahas revoga o tratado
23/7/1952: queda de Farouk
19/10/1954: acordo de retirada total
Junho de 1956: últimos soldados saem de Port Said
 

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III  O Anúncio da Página 3

O banco que vendia ações só a egípcios

A página: os jornais do Cairo dedicaram as primeiras páginas de agosto de 1927 a Zaghloul. O Al-Balagh, diário ligado ao Wafd, cobriu o luto em edições seguidas, e o Al-Ahram, fundado em 1875, abriu espaço para os discursos à beira do túmulo.

O anúncio: nas páginas internas, quem pedia o dinheiro do leitor era o Banque Misr, fundado em 1920 por Talaat Harb com capital vindo só de acionistas egípcios.

A coluna: o tema dos colunistas era a independência que faltava no bolso. Sem indústria própria, o país exportava algodão cru e comprava tecido pronto de Manchester.

O banco de Talaat Harb respondia com empresas. Em 1927, abriu a Misr para Fiação e Tecelagem, em El-Mahalla El-Kubra, no Delta, para fiar no Egito o algodão que antes embarcava para a Inglaterra.

Depois vieram uma gráfica, uma companhia de seguros, uma companhia aérea em 1932 e o Studio Misr, de cinema, em 1935. Cada anúncio vendia o produto e a ideia de um país que pagava as próprias contas.

A poesia também ocupou o jornal. Ahmed Shawqi, chamado de Príncipe dos Poetas, e Hafez Ibrahim, o Poeta do Nilo, publicaram elegias a Zaghloul nas semanas seguintes.

O escultor Mahmoud Mokhtar recebeu a encomenda de duas estátuas do líder, uma para o Cairo e outra para Alexandria. Mokhtar não viu a obra pronta: saiu de cena em 1934, e as estátuas só foram inauguradas em 1938.

O que não se sabe é se Zaghloul teria aceitado o tratado de 1936. Ele recusou acordos mais modestos em vida, e não deixou texto que diga qual teto de soldados toleraria no canal. As cartas e os discursos publicados dele param na exigência de retirada total, sem número negociável.

A ficha da última página:

Data: 23/8/1927
Lugar: Bayt al-Umma, Mounira, Cairo
Cargo: presidente da Câmara dos Deputados
Sucessor no Wafd: Mustafa el-Nahas
Tratado da retirada: 26/8/1936

“Você aceitaria uma independência com soldados estrangeiros guardando o canal?”

O centenário da partida de Zaghloul cai em 23/8/2027, uma segunda-feira. Nessa data, reconfira a cronologia no Museu Bayt al-Umma, na rua Saad Zaghloul, no Cairo, e o texto do tratado de 1936 no catálogo dos Arquivos Nacionais britânicos, em discovery.nationalarchives.gov.uk.

 
 
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Para onde o Tratado Anglo-Egípcio de 1936 mandou as tropas britânicas?

ANo quartel de Kasr el-Nil, no centro do Cairo
BFora do Egito, de volta a Londres
CNa zona do Canal de Suez
DEm Alexandria, na costa do Mediterrâneo

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