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Trinta e Dois Mil Cópias e um Urso Emprestado
Em 14 de outubro de 1926, a Methuen põe nas livrarias de Londres Winnie-the-Pooh, com o nome tomado de uma ursa do zoológico.
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O urso de pelúcia antes da remessa às livrarias
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Numa plataforma de trem em White River, Ontário, em 24 de agosto de 1914, um veterinário do exército canadense de 27 anos pagou vinte dólares a um caçador por uma filhote de urso preto que estava amarrada ao banco da estação. O comboio dele seguia para Valcartier, e de Valcartier para a Inglaterra e para a guerra na França.
O oficial se chamava Harry Colebourn e servia no regimento Fort Garry Horse. Ele batizou a filhote de Winnipeg, nome da cidade onde tinha aberto consultório de veterinário, e encurtou para Winnie. A ursa atravessou o Atlântico com os cavalos do regimento e virou mascote do acampamento em Salisbury Plain.
Em dezembro de 1914, quando a unidade recebeu ordem de embarque para a França, Colebourn levou a ursa ao Jardim Zoológico de Londres e deixou lá em depósito. Voltou vivo da guerra, viu que o animal tinha virado atração da cidade e assinou a doação definitiva ao zoológico em 1919.
Winnie era mansa de um jeito que os tratadores não conseguiam explicar. O zoológico deixava crianças entrarem no recinto, montarem nas costas dela e darem leite condensado com a colher, prática impensável em qualquer outro cercado de urso da instituição.
Um dos meninos que entravam nesse recinto tinha nascido em agosto de 1920 e se chamava Christopher Robin Milne. Ele ganhara um urso de pelúcia da loja Harrods no primeiro aniversário, chamava o bicho de Edward Bear, e depois das visitas ao zoológico rebatizou o brinquedo com o nome da ursa de verdade. O sobrenome veio de outro bicho: um cisne que o menino tinha batizado de Pooh numa temporada de férias e que ficou para trás quando a família voltou para casa.
O pai era A. A. Milne, subeditor da revista Punch, dramaturgo de sucesso no West End e veterano da batalha do Somme, que em 1924 publicara um volume de versos sobre o filho chamado When We Were Very Young e vira o livro esgotar edição atrás de edição.
A primeira página de hoje é o dia em que a pelúcia, a ursa do zoológico e o cisne emprestado chegaram encadernados às livrarias de Londres, com tiragem contada e preço de capa impresso na sobrecapa.
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I A Primeira Página de Hoje
Sete xelins e seis pence em Essex Street
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Na quinta-feira, 14 de outubro de 1926, a editora Methuen and Co., com sede no número 36 da Essex Street, em Londres, pôs à venda Winnie-the-Pooh, livro infantil de dez capítulos, ao preço de sete xelins e seis pence, com primeira tiragem de trinta e dois mil exemplares.
A casa não estava apostando no escuro. O volume de versos de 1924 tinha vendido às dezenas de milhares e criado um público que já conhecia o menino do livro pelo nome, de modo que a Methuen imprimiu de saída uma quantidade que a maioria dos romances adultos do ano nem sonhava alcançar.
Uma semana depois, em 21 de outubro, a E. P. Dutton pôs o mesmo livro nas livrarias de Nova York com tiragem própria ainda maior, e as duas casas ainda venderam separadamente edições de luxo numeradas, encadernadas em couro e assinadas pelo autor e pelo ilustrador.
O crédito da capa trazia dois nomes. O texto era de A. A. Milne e as decorações eram de E. H. Shepard, desenhista da Punch que o autor tinha aceitado a contragosto e que acabou virando metade do produto.
A ficha do lançamento, como o catálogo da editora a registrou:
| Data | quinta-feira, 14 de outubro de 1926 | | Editora | Methuen and Co., Londres | | Primeira tiragem britânica | 32 mil exemplares | | Preço de capa | sete xelins e seis pence | | Capítulos | dez | | Ilustrador | E. H. Shepard |
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O urso que entrou na vitrine de Londres não era o urso do menino. Shepard achou a pelúcia da família Milne dura e sem graça de desenhar, e usou como modelo o bicho do próprio filho, um urso de pelúcia gordo e caído chamado Growler, que anos depois foi destruído por um cão no Canadá.
A paisagem também era copiada do natural. O bosque dos desenhos é a floresta de Ashdown, em Sussex, perto da casa de campo que os Milne tinham comprado em 1925, e Shepard percorreu a região com o caderno na mão para desenhar as árvores, a ponte de madeira e a clareira que viraram o Bosque dos Cem Acres.
A abertura do livro pôs o brinquedo em cena antes de qualquer explicação, com o urso descendo a escada de cabeça para baixo, batendo a nuca em cada degrau, arrastado pelo menino.
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Aqui está Edward Bear, descendo agora a escada, bum, bum, bum, com a nuca batendo, atrás de Christopher Robin.
A. A. Milne, Winnie-the-Pooh, 1926
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A crítica britânica tratou o lançamento como acontecimento nacional em poucas semanas, os suplementos de Natal puseram o título nas listas de presente, e antes do fim do ano a Methuen já rodava reimpressão para dar conta da temporada.
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II O Que Aconteceu Depois
O que o urso de pelúcia comprou em cem anos
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Em dezembro de 1926 o livro já estava em reimpressão, e nas décadas seguintes a série passou dos cinquenta milhões de exemplares vendidos e foi traduzida para mais de cinquenta idiomas, incluindo uma versão em latim que entrou na lista de mais vendidos do New York Times em 1960.
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O autor emendou os dois volumes que faltavam. Now We Are Six saiu em 1927, com mais versos sobre o menino, e The House at Pooh Corner saiu em 1928, apresentando o burro, o tigre e a despedida final na clareira do topo da colina.
Depois disso ele fechou a porta. A. A. Milne tinha uma carreira de dramaturgo e de romancista adulto e passou o resto da vida irritado por só ser lido como o autor de quatro livros infantis, escrevendo peças e ensaios que ninguém procurava mais na livraria.
Shepard chegou ao mesmo lugar por outro caminho. O desenhista viveu até 1976, viu cada cartão-postal e cada lata de biscoito trazerem os traços dele, e passou a chamar a criatura de urso bobo que engoliu o resto do trabalho de uma vida inteira.
O preço mais alto ficou com o menino do título. Christopher Robin Milne foi perseguido no internato com gravações dos versos que o pai escrevera sobre ele, brigou com a família na vida adulta e abriu uma livraria em Dartmouth para viver de um sobrenome que não fosse personagem.
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Parecia-me quase que meu pai chegou aonde chegou subindo nos meus ombros de criança.
Christopher Milne, The Enchanted Places, 1974
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O negócio saiu das mãos da família cedo. Em 1930 Milne vendeu os direitos de licenciamento nos Estados Unidos e no Canadá ao agente Stephen Slesinger por mil dólares adiantados e uma fatia dos rendimentos, e Slesinger transformou o urso em jogo de tabuleiro, disco, boneco e desenho de rádio ainda nos anos trinta.
A Disney comprou a licença dessa cadeia em 1961, lançou o primeiro curta em 1966, vestiu o urso de camiseta vermelha e o converteu numa das marcas mais rentáveis já registradas, com faturamento anual comparável ao do camundongo da própria casa.
Cada peça original acabou virando relíquia de museu ou de mapa turístico. Os brinquedos de Christopher Robin estão expostos na Biblioteca Pública de Nova York desde 1987, a floresta de Ashdown virou destino de peregrinação com ponte reconstruída, e o texto de 1926 entrou em domínio público nos Estados Unidos em 1º de janeiro de 2022.
A ursa que deu o nome não viu nada disso. Winnie morreu no zoológico de Londres em 1934, depois de vinte anos de visitas escolares, e o veterinário que a comprara por vinte dólares numa estação de trem seguiu clinicando em Winnipeg sem receber um centavo de royalty.
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