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Trótski Perde a Cadeira no Politburo
Em 23 de outubro, já em 1926, o Comitê Central retira Leon Trótski do Politburo depois de um verão de disputa aberta contra Stálin.
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Sala de reunião no Kremlin, Moscou, 1926
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A Carta ao Congresso que Vladímir Ilitch Lênin ditou em dezembro de 1922 descrevia Leon Trótski como o homem mais capaz do Comitê Central então em exercício. No 23 de outubro, já em 1926, esse mesmo Comitê Central aprovou a retirada de Trótski do Politburo, o Bureau Político, o colegiado de poucos dirigentes que decidia em nome do partido inteiro no intervalo entre congressos. Os dois registros são documentos conferíveis: a carta ditada por Lênin, reconhecida oficialmente pelo Partido Comunista soviético em 1956, e a resolução do plenário conjunto do Comitê Central com a Comissão Central de Controle, impressa na Pravda, o diário do partido, nos dias seguintes à votação.
Lênin morreu em janeiro de 1924 sem que a carta chegasse aos delegados reunidos. O texto foi lido em sessões fechadas e arquivado. Quem herdou a máquina do partido foi Ióssif Stálin, secretário-geral desde abril de 1922, cargo que a carta pedia para tirar dele.
A briga tinha conteúdo, e não só cadeira. Trótski defendia a revolução permanente, a tese de que a revolução russa só sobreviveria se países industrializados seguissem o mesmo caminho. Stálin e Nikolai Bukhárin sustentavam o socialismo num só país, a aposta de construir a nova ordem dentro das fronteiras soviéticas, sem esperar por Berlim ou Paris. Em janeiro de 1925, Trótski já havia perdido o comissariado de Guerra, o ministério que comandara durante a guerra civil, substituído por Mikhail Frunze.
Em 1926 a oposição mudou de formato. Trótski se aliou a Grigóri Zinóviev e a Lev Kámenev, os dois homens que haviam liderado a campanha contra ele dois anos antes, e o bloco passou a levar o argumento diretamente às células de fábrica de Moscou e de Leningrado, em reuniões que a direção classificou como fracionismo, a prática de organizar um grupo com disciplina própria dentro do partido. No plenário de julho de 1926, Zinóviev já perdera o assento no Politburo. Em 16 de outubro, seis dirigentes da oposição assinaram uma declaração que reconhecia a quebra de disciplina e prometia encerrar a campanha pública.
A declaração não bastou. A primeira página de hoje reconstrói a sessão que se abriu uma semana depois, no Kremlin, e o que a resolução final decidiu sobre cada nome do bloco derrotado.
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I A Primeira Página de Hoje
A sessão de quatro dias que esvaziou a cadeira
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O plenário conjunto do Comitê Central e da Comissão Central de Controle, o órgão disciplinar do partido, começou em 23 de outubro no Kremlin, em Moscou, e se estendeu por quatro dias. Reuniões desse tipo funcionavam como tribunal político: a pauta trazia a conduta de nomes específicos, cada acusado falava em sua defesa e a resolução saía votada no encerramento.
A denúncia levada à mesa tinha data e endereço. Nas duas primeiras semanas daquele mês, dirigentes da oposição unificada apareceram em assembleias de células de fábrica em Moscou e em Leningrado para defender suas teses diante dos operários filiados, passando por cima da hierarquia que mandava discutir divergência dentro dos órgãos do partido.
Trótski falou na sessão e não recuou do conteúdo, mesmo tendo assinado a trégua de 16 de outubro. Repetiu que a política de Stálin e de Bukhárin apostava no camponês próspero e adiava a industrialização, e que o aparato do partido havia substituído o debate pela nomeação de cima para baixo. A maioria respondeu que a oposição descumprira a promessa feita sete dias antes.
A resolução aprovada retirou Leon Trótski do Politburo, tirou Lev Kámenev da condição de membro candidato e afastou Grigóri Zinóviev da presidência do Comitê Executivo da Internacional Comunista, a Komintern, a organização que coordenava os partidos comunistas do mundo desde 1919. Nenhum dos três foi expulso do partido naquele plenário: os três mantiveram a carteira de filiado por mais um ano. |
A carta de Lênin, que a oposição citava em cada assembleia, dizia o seguinte sobre o homem que perdia a cadeira.
| | “O camarada Trótski é, talvez, o homem mais capaz do atual Comitê Central, mas também é o que tem excesso de autoconfiança e excesso de atração pelo lado puramente administrativo das questões.” (Trecho da avaliação que Lênin ditou sobre cada dirigente.) Carta ao Congresso, Vladímir Ilitch Lênin, ditada em 25 de dezembro de 1922 |
A ficha da sessão:
| Órgão reunido: plenário conjunto do Comitê Central e da Comissão Central de Controle | | Abertura: 23 de outubro, já em 1926, no Kremlin, em Moscou, por quatro dias | | Acusação central: fracionismo, a organização de um grupo disciplinado dentro do partido | | Episódio que motivou a pauta: discursos da oposição em células de fábrica de Moscou e de Leningrado | | Punição a Leon Trótski: perda do assento no Politburo | | Punição a Lev Kámenev: perda da condição de membro candidato do Politburo | | Punição a Grigóri Zinóviev: perda da presidência do Comitê Executivo da Internacional Comunista | | Situação partidária dos três após o plenário: filiados, sem cargo de direção |
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O Politburo que sobrou tinha Stálin no centro e Bukhárin como formulador econômico. A imprensa do partido deixou de publicar os textos da oposição, que passaram a circular datilografados.
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II O Que Aconteceu Depois
De Alma Ata ao subúrbio de Coyoacán
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A oposição tentou uma demonstração pública no décimo aniversário da revolução. Em 7 de novembro de 1927, grupos ligados a Trótski e a Zinóviev levantaram faixas próprias nos desfiles de Moscou e de Leningrado e foram dispersados. Cinco dias depois, Leon Trótski e Grigóri Zinóviev foram expulsos do Partido Comunista, e o 15º Congresso estendeu a expulsão a dezenas de oposicionistas. |
Zinóviev e Kámenev escolheram a retratação e voltaram ao partido em 1928. Trótski recusou, e em janeiro daquele ano foi deportado para Alma Ata, capital do Cazaquistão soviético, a quase quatro mil quilômetros de Moscou.
Em fevereiro de 1929 veio a expulsão do território soviético. Trótski embarcou em Odessa para a Turquia e se instalou em Prinkipo, ilha no mar de Mármara, onde escreveu a autobiografia e a história da revolução russa. Perdeu a cidadania soviética por decreto em 1932. Depois vieram a França, em 1933, e a Noruega, em 1935, com prazos de permanência cada vez mais curtos.
O México abriu a porta que a Europa fechou. Por gestão do pintor Diego Rivera, o presidente Lázaro Cárdenas concedeu asilo, e Trótski desembarcou em Tampico em janeiro de 1937, indo morar em Coyoacán, bairro da capital mexicana. Uma comissão independente presidida pelo filósofo norte-americano John Dewey ouviu seu depoimento ali e concluiu que as acusações dos processos de Moscou não se sustentavam nas provas apresentadas.
A cronologia do caso:
| dezembro de 1922: Lênin dita a Carta ao Congresso e pede a substituição de Stálin na secretaria-geral | | janeiro de 1924: Lênin morre e a carta segue fora do debate público | | janeiro de 1925: Trótski perde o comissariado de Guerra para Mikhail Frunze | | julho de 1926: Zinóviev perde o assento no Politburo | | 23 de outubro, em 1926: o plenário conjunto retira Trótski do Politburo | | 12 de novembro de 1927: Trótski e Zinóviev são expulsos do partido | | janeiro de 1928: Trótski é deportado para Alma Ata, no Cazaquistão | | fevereiro de 1929: Trótski deixa a União Soviética rumo à Turquia | | janeiro de 1937: o México concede asilo e ele se instala em Coyoacán | | agosto de 1940: um agente infiltrado o fere na própria casa, e ele não resiste ao ferimento |
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O atentado está documentado em processo criminal mexicano. Em maio de 1940 um grupo armado liderado pelo muralista David Alfaro Siqueiros metralhou a casa de Coyoacán sem atingir os moradores. Em agosto, Ramón Mercader, espanhol que frequentava a casa havia meses sob identidade falsa, atacou Trótski no escritório com uma picareta de alpinista. Mercader cumpriu vinte anos de prisão no México e foi solto em 1960.
Convém apontar o que o registro público deixa em aberto. A ata taquigráfica completa do plenário de outubro ficou no arquivo central do partido e só foi liberada para pesquisa nos anos 1990: o texto que a Pravda imprimiu na época traz a decisão, e não a contagem de votos favoráveis e contrários. Quem procura o número exato depende do fundo 17 do arquivo estatal russo de história sociopolítica, o RGASPI, em Moscou.
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