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União Sul-Africana hasteia, em 31/5/1928, a bandeira de 3 bandeiras

Depois de 3 anos de briga no Parlamento, o país sobe um pavilhão próprio com o Union Jack em miniatura na faixa branca.

Bandeira laranja, branca e azul dobrada sobre a mesa.

Cidade do Cabo, 31 de maio de 1928

▼
 

Em 31/5/1928, a União Sul-Africana hasteou a primeira bandeira própria, criada pela Lei de Nacionalidade e Bandeiras de 1927 (Act 40 of 1927). A mesma lei mandou que o Union Jack, a bandeira do Reino Unido, continuasse a subir ao lado dela nos prédios do governo.

O país ganhava um pavilhão nacional e seguia obrigado a hastear o do império. As duas bandeiras dividiam o mastro do Parlamento, na Cidade do Cabo, e os edifícios da Union Buildings, sede do governo em Pretória.

A data não foi escolhida ao acaso. Em 31/5/1902, o Tratado de Vereeniging encerrou a Guerra dos Bôeres (os colonos de origem holandesa contra o exército britânico). Em 31/5/1910, as quatro colônias da região formaram a União, sob a coroa britânica.

O desenho levava as marcas da guerra. Sobre três faixas horizontais, laranja, branca e azul, a faixa do meio trazia três bandeiras pequenas: o Union Jack e as bandeiras das duas repúblicas bôeres que o império tinha derrotado em 1902.

Na Cidade do Cabo, a cerimônia foi acompanhada por um hino ainda sem cargo oficial. Ali se cantou em público, pela primeira vez, Die Stem van Suid-Afrika (A Voz da África do Sul), com letra do poeta C. J. Langenhoven.

O desenho tinha custado três anos de briga. Deputados ameaçaram votar contra o governo, jornais de Durban falaram em separar a província de Natal da União, e o projeto de lei foi refeito em várias rodadas de comissão.

Os brancos de origem britânica queriam o Union Jack inteiro. Os de origem bôer, chamados africânderes, não aceitavam ver a bandeira do antigo inimigo como símbolo do país.

A saída foi pôr os três adversários no mesmo pano, em tamanho igual, e manter o Union Jack no mastro ao lado. O acordo valeu por 66 anos, atravessou a República de 1961 e só caiu em 27/4/1994.

A primeira página começa pelo governo que propôs a bandeira e pela briga que o desenho tentou calar.

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I  A Primeira Página de Hoje

Laranja, branco e azul

O general James Barry Munnik Hertzog chegou a primeiro-ministro da União Sul-Africana em 1924, à frente do Partido Nacional, a legenda dos africânderes. Prometeu ao eleitor um país com símbolos próprios dentro do império.

Em 1925, o ministro do Interior, Daniel François Malan, apresentou o projeto de bandeira no Parlamento. A primeira versão excluía o Union Jack do pano.

A oposição veio do Partido Sul-Africano, de Jan Christiaan Smuts, e da província de Natal, onde a maioria branca era de origem britânica. Em Durban, comícios juntaram veteranos da Primeira Guerra Mundial em defesa do Union Jack.

Nos dois anos seguintes, o projeto circulou entre comissões. As propostas iam de um escudo com as armas das quatro províncias a um pano liso, sem nenhuma bandeira dentro.

O impasse terminou em outubro de 1927, num acordo fechado entre Hertzog e Smuts. Haveria duas bandeiras oficiais: a nova, nacional, e o Union Jack, como sinal do vínculo com a Comunidade Britânica.

O acordo de 1927 resolveu a briga com aritmética de pano: as três bandeiras da faixa branca têm o mesmo tamanho, e nenhuma ocupa o centro sozinha.

O fundo copiava a Prinsenvlag (bandeira do Príncipe), o pavilhão laranja, branco e azul das Províncias Unidas dos Países Baixos no século 17. Com ela chegaram ao Cabo os navios da Companhia Holandesa das Índias Orientais, em 1652.

Na faixa branca, perto do mastro, ficou o Union Jack, deitado. No centro, pendurada na vertical, a bandeira do Estado Livre de Orange. Perto da ponta solta, a Vierkleur (Quatro Cores), bandeira da República Sul-Africana do Transvaal.

O Estado Livre de Orange e o Transvaal tinham sido repúblicas independentes até 1902. Ver as duas costuradas ao lado do Union Jack era, para os africânderes, um reconhecimento do país que a guerra apagara.

Para os de origem britânica, a garantia era o segundo mastro. O Union Jack subia inteiro ao lado da bandeira nova sobre o Parlamento, os prédios do governo e os portos.

Smuts cedeu no desenho para ganhar no mastro. Hertzog cedeu no mastro para ganhar no desenho. Cada lado saiu do acordo com uma prova de que não tinha perdido.

O apelido pegou depressa: Oranje-Blanje-Blou (laranja, branco e azul, em africâner). A bandeira subiu pela primeira vez em 31/5/1928, na Cidade do Cabo e em Pretória.

A cronologia da bandeira:

1924: Hertzog vira premiê
1925: Malan propõe a bandeira
Outubro de 1927: acordo Hertzog e Smuts
31/5/1928: primeiro hasteamento
 
 

II  O Que Aconteceu Depois

Do mastro duplo a 1994

O mastro duplo durou 29 anos. Em 1957, o governo do primeiro-ministro Johannes Gerhardus Strijdom aprovou uma emenda à lei de bandeiras, e o Union Jack deixou de ser bandeira oficial do país.

No mesmo ano, Die Stem van Suid-Afrika ficou como hino único. Até ali, o God Save the King (Deus Salve o Rei) dividia o posto com a canção de Langenhoven.

Em 31/5/1961, a União virou República da África do Sul e saiu da Comunidade Britânica. A bandeira de 1928 ficou, com o Union Jack em miniatura ainda costurado na faixa branca.

O pano que nasceu de um acordo entre brancos de duas origens virou, nas décadas seguintes, a bandeira do apartheid (o regime de segregação racial oficial, instalado a partir de 1948). A maioria negra do país nunca votou no desenho.

Em 1993, durante a negociação que acabou com o regime, uma comissão abriu um concurso público para a bandeira nova. Chegaram milhares de propostas, e nenhuma convenceu os partidos.

A bandeira que pediu três anos de Parlamento em 1928 foi substituída por um desenho feito em poucas semanas, com a eleição já marcada.

Coube ao arauto de Estado (o funcionário que registra brasões e símbolos oficiais) Frederick Brownell desenhar a substituta. O Conselho Executivo de Transição, governo provisório da passagem, aprovou o desenho em março de 1994.

A bandeira nova subiu em 27/4/1994, dia da primeira eleição com voto de todos os sul-africanos. Nelson Mandela tomou posse como presidente em 10/5/1994, sob o pano de seis cores.

A Oranje-Blanje-Blou desceu dos mastros oficiais naquele abril. Em 21/8/2019, o Tribunal de Igualdade de Joanesburgo decidiu, em ação da Fundação Nelson Mandela, que exibir a bandeira antiga sem motivo histórico, artístico ou de estudo configura discurso de ódio.

A Suprema Corte de Apelação confirmou a decisão em 2023. A bandeira de 1928 segue liberada em museu, livro e aula de história.

A cronologia depois do acordo:

1957: Union Jack sai do mastro
31/5/1961: nasce a República
27/4/1994: bandeira de Brownell sobe
21/8/2019: exibição vira discurso de ódio
 

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III  O Anúncio da Página 3

Duas bandeiras e um hino emprestado

A página: os jornais de língua africâner, como Die Burger, da Cidade do Cabo, trataram o hasteamento como vitória do Partido Nacional. A imprensa de língua inglesa de Natal deu mais espaço ao Union Jack, que continuava no segundo mastro.

A coluna: o hino da cerimônia ainda não tinha posto oficial. Langenhoven escreveu a letra em 1918, e o pastor Marthinus Lourens de Villiers compôs a música em 1921.

O anúncio: a lei de 1927 descrevia o desenho em texto, sem desenho padrão anexo. Fabricantes de bandeira e lojas de tecido tiveram de traduzir a descrição em pano, e as primeiras peças saíram com tons de laranja diferentes entre si.

O laranja da Prinsenvlag original, no século 17, também variou. Nos Países Baixos, o laranja da bandeira holandesa virou vermelho ao longo daquele século, e a África do Sul recuperou em 1928 a cor que a própria Holanda tinha deixado de usar.

O Union Jack da faixa branca seguia o desenho de 1801, o mesmo do Reino Unido. Por ficar deitado e pequeno, a cruz de São Patrício, que representa a Irlanda, mal aparecia nas bandeiras de mesa.

O que não se sabe é quem traçou a versão final do acordo de 1927. Os registros parlamentares guardam as propostas das comissões e o texto da lei, mas não assinam o desenho com um nome só.

Também não há contagem oficial de quantas bandeiras foram costuradas para 31/5/1928. O governo encomendou peças para os prédios públicos, e o comércio vendeu o resto sem registro centralizado.

Sobrou a regra de uso, escrita na própria lei. Nos prédios do governo e nas representações do país no exterior, as duas bandeiras subiam juntas, em mastros separados; na janela de casa, o cidadão escolhia qual pendurar.

A ficha da última página:

Primeiro hasteamento: 31/5/1928
Lei: Act 40 of 1927
Faixas: laranja, branco, azul
Bandeiras na faixa: 3
Mastro duplo até: 1957
Substituída em: 27/4/1994

“Você aceitaria a bandeira do adversário costurada na sua, se ela fosse do mesmo tamanho?”

O centenário do primeiro hasteamento cai em 31/5/2028, uma quarta-feira: nesse dia, reconfira o texto da Lei 40 de 1927 nos Arquivos Nacionais da África do Sul (nationalarchives.gov.za) e a ficha da bandeira atual no portal do governo, em gov.za.

 
 
Quiz da edição

Segundo o texto, por quantos anos o acordo da bandeira de 3 bandeiras vigorou, da primeira hasteada em 31/5/1928 até cair em 27/4/1994?

A61 anos
B72 anos
C66 anos
D29 anos

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