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Wuchang Cai Após Quarenta Dias de Cerco

Em 10 de outubro de 1926, o Exército Nacional Revolucionário entra em Wuchang quinze anos depois do levante que derrubou o império chinês.

Portão de muralha de tijolo entreaberto com a tranca de ferro caída no chão de pedra.

Muralha e portão de Wuchang, outubro de 1926

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O Duplo Dez, feriado nacional da República da China desde 1912, celebrava a revolta iniciada em Wuchang em 10 de outubro de 1911, a que derrubou a dinastia Qing e encerrou dois milênios de governo imperial. Quinze anos exatos adiante, em 10 de outubro de 1926, a própria Wuchang capitulou por fome diante de um exército que se dizia herdeiro daquela revolta, depois de quarenta dias com os portões da muralha trancados.

Os dois registros são públicos e datados. O feriado consta do calendário oficial republicano desde 1912. A rendição está nos telegramas que a agência Reuters distribuiu de Hankou em outubro de 1926 e na cobertura do North China Herald, semanário de Xangai que circulava em inglês desde 1850.

Entre eles ficou uma campanha militar. Em julho de 1926, o Exército Nacional Revolucionário partiu de Cantão rumo ao norte, sob comando de Chiang Kai-shek, com o propósito declarado de derrubar os senhores da guerra que dividiam o país em feudos armados. O primeiro alvo grande do caminho era Wu Peifu, general que controlava a província de Hubei e as três cidades do delta onde o rio Han encontra o Yangtzé.

Duas dessas três cidades caíram rápido. Hankou, o porto comercial, e Hanyang, com seu arsenal e sua siderúrgica, mudaram de mando na primeira semana de setembro de 1926, sem cerco demorado. Wuchang ficou de fora dessa conta por um motivo físico: era a única das três cercada por muralha de tijolo, com portões que podiam ser fechados e defendidos.

A contagem de civis que morreram de inanição dentro dos muros nunca foi fechada. Os relatos de missionários e as reportagens estrangeiras do período falam em milhares, sem apuração de nomes, e o governo provincial não publicou registro civil daqueles quarenta dias. O que está documentado é a cronologia militar, portão por portão.

A primeira página de hoje traz os assaltos frontais que fracassaram em setembro, o regimento que escalou a muralha de escada e o oficial que decidiu abrir a tranca por dentro.

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I  A Primeira Página de Hoje

Quarenta dias de muralha fechada sobre o Yangtzé

Wuchang ocupava a margem direita do Yangtzé, em frente a Hankou, e guardava uma muralha de tijolo de cerca de dez quilômetros de perímetro, com nove portões. Dentro dela estavam a sede do governo provincial de Hubei e uma guarnição que o general Liu Yuchun comandava em nome de Wu Peifu, com algo em torno de dez mil homens quando o cerco começou, no fim de agosto de 1926.

As tropas do Exército Nacional Revolucionário chegaram diante dos portões em 31 de agosto. A Quarta Armada, formada em Guangdong e apelidada de Exército de Ferro pela imprensa republicana, recebeu a tarefa de romper a muralha pelo lado sul.

O primeiro assalto saiu na madrugada de 3 de setembro de 1926, com escadas de bambu encostadas na parede diante do Portão Tongxiang. As metralhadoras dos defensores varreram o pé do muro e o ataque recuou antes do amanhecer. Um segundo assalto, na madrugada de 5 de setembro, terminou do mesmo modo, e o regimento independente comandado por Ye Ting perdeu boa parte da companhia que subiu primeiro.

Depois de duas tentativas frustradas em quarenta e oito horas, o comando republicano trocou o assalto pelo bloqueio. Cavou trincheiras ao redor dos nove portões, cortou a estrada de ferro Pequim-Hankou no trecho sul e passou a impedir a entrada de arroz e de carvão na cidade. A partir da segunda semana de setembro, quem estava dentro dependia do estoque que já tinha.

O manifesto que abrira a campanha, dois meses antes, explicava o objetivo em duas linhas.

 

“Derrubar os senhores da guerra e abolir os tratados desiguais.” (O propósito declarado da campanha, na tradução corrente do documento.)

Manifesto da Expedição do Norte, Exército Nacional Revolucionário, julho de 1926

A ficha do cerco:

Cidade sitiada: Wuchang, na margem direita do Yangtzé, província de Hubei
Perímetro da muralha: cerca de dez quilômetros, com nove portões
Comandante da guarnição: general Liu Yuchun, subordinado a Wu Peifu
Atacante: Exército Nacional Revolucionário, com a Quarta Armada à frente
Início do cerco: 31 de agosto de 1926
Assaltos frontais fracassados: madrugadas de 3 e de 5 de setembro de 1926
Tática adotada depois: bloqueio total de alimento e combustível
Cidades vizinhas já tomadas: Hankou e Hanyang, na primeira semana de setembro
Rendição: 10 de outubro de 1926

Dentro dos muros, o arroz subiu até sair do alcance de quem vivia de salário, e as cozinhas de caridade mantidas por comerciantes e missionários fecharam quando o estoque acabou. Civis que tentaram sair pelos portões foram barrados pelos dois lados: a guarnição temia deserção disfarçada de fuga.

 
 

II  O Que Aconteceu Depois

O portão destrancado por dentro e o governo que mudou de cidade

A muralha não foi rompida. Em 10 de outubro de 1926, Chen Jiamo, oficial da guarnição que respondia pelo setor norte, negociou com o cerco e mandou abrir o Portão Zhonghe pelo lado de dentro. As tropas republicanas entraram sem combate de rua, e Liu Yuchun se rendeu no mesmo expediente, encerrando quarenta dias de bloqueio.

A coincidência com o feriado não passou despercebida. Os proclamas colados nos muros tratavam a entrada como conclusão da revolta de 1911, e o portão aberto por Chen Jiamo foi rebatizado de Qiyi Men, Portão do Levante.

Wu Peifu perdeu ali a base do próprio poder militar. Recuou para o norte, nunca recuperou Hubei e passou os anos seguintes sem comando de campanha, primeiro em Sichuan, depois em Pequim, onde viveu até 1939.

A vitória mudou o mapa político do lado vencedor. Em dezembro de 1926, o governo nacionalista começou a transferir seus órgãos de Cantão para Wuhan, nome que passou a designar o conjunto de Wuchang, Hankou e Hanyang, e em janeiro de 1927 a capital republicana funcionava no delta. A aliança que tomara a cidade durou pouco: em abril de 1927, Chiang Kai-shek rompeu com os comunistas em Xangai, e o governo de Wuhan, liderado por Wang Jingwei, seguiu separado até setembro daquele ano.

A linha do tempo do caso:

10 de outubro de 1911: a revolta de Wuchang inicia a queda da dinastia Qing
1912: o 10 de outubro vira feriado nacional da República da China
julho de 1926: o Exército Nacional Revolucionário parte de Cantão rumo ao norte
início de setembro de 1926: Hankou e Hanyang mudam de mando sem cerco longo
31 de agosto de 1926: as tropas republicanas fecham o cerco de Wuchang
3 e 5 de setembro de 1926: dois assaltos frontais fracassam diante da muralha
10 de outubro de 1926: Chen Jiamo abre o Portão Zhonghe e a guarnição se rende
dezembro de 1926: o governo nacionalista começa a mudar de Cantão para Wuhan
abril de 1927: a ruptura de Chiang Kai-shek com os comunistas divide o campo vencedor
1927 a 1929: a muralha de Wuchang é demolida e vira avenida

Convém dizer com todas as letras o que ficou em aberto. O total de mortos civis pela fome durante o bloqueio nunca teve apuração oficial, e as estimativas publicadas na época variam de poucos milhares a algumas dezenas de milhares, sem base documental comum. Também não há acordo entre historiadores sobre o que Chen Jiamo negociou para si ao destrancar o portão: o registro firme é o gesto, com hora e local, não a contrapartida.

Da muralha demolida entre 1927 e 1929 sobrou um portão de pé. O Qiyi Men continua na avenida Wuluo, em Wuchang, tombado como patrimônio e visitável, com placa que menciona 1911 e 1926.

 

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III  O Anúncio da Página 3

O reclame nas páginas dos diários de Xangai

A página: a guerra civil chinesa de 1926 chegava ao leitor por três caminhos de papel. O Shenbao, diário de Xangai fundado em 1872, e o Xinwen Bao disputavam o público chinês urbano com edições de dezenas de páginas. O North China Daily News e seu semanário North China Herald atendiam os estrangeiros das concessões. A agência Reuters despachava de Hankou para Londres, e os jornais europeus e americanos publicavam a versão telegráfica no dia seguinte.

O anúncio: o reclame que dividia página com as notícias do cerco vendia consumo urbano. A briga comercial mais visível era a do cigarro, entre a British American Tobacco, estabelecida em Xangai desde 1902, e a Nanyang Brothers Tobacco, casa chinesa que vendia patriotismo junto com o maço desde a campanha de boicote a produtos estrangeiros. A Wuzhou Drugstore, a farmácia dos Cinco Continentes, anunciava remédio e sabonete de fabricação nacional com o mesmo argumento.

A coluna: a peça gráfica que resumia o período era o yuefenpai, o cartaz de calendário, litografia colorida que trazia uma figura feminina, a marca do anunciante e a tabela dos meses. Empresas de tabaco, de remédio e de tecido distribuíam esses cartazes de graça no fim do ano, e a casa que os imprimia em maior volume era a Commercial Press, editora fundada em 1897 que também dominava o mercado de livro escolar.

A ficha da imprensa e do reclame chinês no período, item por item:

Diário chinês de maior circulação em Xangaio Shenbao, fundado em 1872
Outro grande diário chinês da cidadeo Xinwen Bao
Publicações em inglês nas concessõesNorth China Daily News e North China Herald
Agência que despachava do deltaa Reuters, de Hankou
Briga de marca mais visívelBritish American Tobacco contra Nanyang Brothers Tobacco
Argumento de venda da casa chinesaproduto nacional contra produto estrangeiro
Farmácia que anunciava fabricação nacionalWuzhou Drugstore, dos Cinco Continentes
Peça gráfica típica do reclameo yuefenpai, cartaz de calendário litografado
Maior editora do paísa Commercial Press, fundada em 1897
Censura vigentecada senhor da guerra controlava a imprensa da área sob seu mando

O jornal circulava melhor onde a guerra não estava. Nas concessões estrangeiras de Xangai, protegidas por estatuto próprio, o diário saía sem apreensão; nas províncias em disputa, o correio parava com a estrada de ferro cortada, e a notícia do cerco levou dias para chegar ao interior de Hubei.

O leitor de Xangai soube da rendição antes de muitos vizinhos de Wuchang: os telegramas de Hankou correram por linha britânica enquanto o arroz seguia parado nos trilhos cortados.

O registro do caso segue público e conferível. O acervo digitalizado do Shenbao está disponível em bibliotecas universitárias chinesas e o do North China Herald em bases de periódicos históricos. O centenário da rendição cai em 10 de outubro de 2026: reconfira nesse dia as edições de 11 de outubro de 1926 nos dois acervos e compare a estimativa de mortos que cada um imprimiu.

“Quem abre o portão decide o fim do cerco?”

 
 
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Quiz da edição

No dia 10 de outubro de 1926, quem destrancou o portão de Wuchang pelo lado de dentro, encerrando o cerco sem combate de rua?

AWu Peifu, general que controlava a província de Hubei
BLiu Yuchun, comandante da guarnição de Wuchang
CYe Ting, oficial do regimento independente da Quarta Armada
DChen Jiamo, oficial da guarnição responsável pelo setor norte

Veja o ranking de quem mais acerta →

 
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